O que resta a Havana sem ter Washington como grande inimigo

O confronto com os EUA definiu a posição de Cuba no mundo e ajudou o governo a justificar o que quer que fosse

Tom Gjelten , WASHINGTON POST

23 de dezembro de 2014 | 02h02

Durante mais de 50 anos, a inimizade com os Estados Unidos foi parte integrante da identidade política cubana. Era como se, pelo menos na mente de Fidel Castro, Cuba tivesse necessidade existencial de ter os americanos como rivais.

Com o passar dos anos, o confronto do regime com os EUA definiu a posição de Cuba no mundo e ajudou o governo a justificar o que quer que fosse, desde a negação das liberdades políticas à escassez de bens.

Essa postura era tão convincente que a liderança cubana foi profundamente ambivalente na questão de uma reaproximação com os EUA, repudiando aberturas que datavam dos governos Ford e Carter. Na realidade, a prisão do trabalhador da ajuda americano Alan Gross pelo regime, no final de 2009, ocorreu meses depois de o presidente Barack Obama declarar sua intenção de estabelecer "um novo começo" com Cuba.

Embora os líderes cubanos tenham recebido elogios internacionais por seu sistema de saúde pública e pelos programas na área da educação, essas realizações foram ofuscadas pela repressão de toda oposição, interna e externa, por eles conseguido com sucesso. Os salários da polícia em Cuba são 50% superiores aos dos médicos e dos professores, e os agentes de segurança do Estado recebem uma remuneração ainda maior.

Não surpreende que, com o passar dos anos, as operações cubanas de inteligência e de contra inteligência no que diz respeito aos EUA tenham tido mais sucesso do que as operações americanas contra a ilha.

Obama afirma que os EUA estão dispostos a aprovar a participação de Cuba na Cúpula das Américas, que se realizará em abril do próximo ano no Panamá, com a condição de que também seja garantida a participação de representantes da sociedade civil cubana. Essa é outra vitória para Cuba. Anteriormente os EUA e outros participantes da cúpula, desde 2001, exigiam "o rigoroso respeito do sistema democrático" como requisito para a participação.

O reconhecimento de Washington foi claramente importante para Raúl Castro. Em seu discurso, na quarta-feira, ele disse que o diálogo com os Estados Unidos teve como base a "igualdade soberana".

Se os Estados Unidos conseguirem se aproximar da sociedade civil cubana, com dissidentes e com o setor privado da ilha, poderão ser bem-sucedidos onde outras iniciativas falharam. Um fluxo de turistas para Cuba, ofertas de apoio à iniciativa privada e facilitação das comunicações poderão criar expectativas que o governo cubano não terá como atender - pelo menos não sem adotar outras reformas muito mais significativas do que as que permitiu até agora. Se Havana recuar agora, com as oportunidade que o governo de Obama ofereceu, os cubanos poderão reagir com uma revolta que não manifestam frequentemente.

Ambos os governos apostam que esse novo mundo atenderá a seus respectivos interesses políticos. Entretanto, nessa negociação não haverá apenas vencedores: um governo ou o outro provavelmente sairá perdendo. /WASHINGTON POST, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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