O que Sakineh ensinou a Lula

Caso de iraniana condenada à morte pode ter mostrado real face de Ahmadinejad ao presidente brasileiro

Potkin Azarmehr / Instituto Millenium, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Será que toda a publicidade em torno da sentença de apedrejamento de Sakineh Ashtiani vai ajudá-la ou só contribuirá para piorar as coisas? Tenho feito várias vezes esta pergunta a mim mesmo. Em geral, minha primeira reação é que seria impossível piorar a situação de uma pessoa condenada ao apedrejamento.

O que pode ser pior para uma mulher do que ser colocada em um saco, enterrada até o peito e sofrer uma morte lenta e dolorosa sob os golpes das pedras que uma malta de neandertais que nada têm de humano atira contra ela?

O que pode ser pior para Sakineh do que acordar todas as manhãs pensando "é hoje que a sentença vai ser cumprida"? Portanto, não, as coisas não poderão piorar para Sakineh por causa de toda a publicidade que seu caso criou.

Será que esta publicidade e todas as campanhas salvarão sua vida? É uma pergunta ainda mais difícil de responder. Quem sabe o Judiciário da República Islâmica decida que aplicar a sentença não atende aos seus interesses ou os elementos imprevisíveis que hoje dominam o Judiciário do Irã talvez achem que é mais importante não dar a impressão de ceder às pressões externas e fazer concessões. Portanto, o sucesso da campanha internacional para salvar Sakineh não é garantido, mas a campanha já conseguiu várias vitórias, e a mais marcante é talvez alertar alguns dos que tentaram agradar ao governo de Mahmoud Ahmadinejad a se conscientizar com quem e com o que eles estão se envolvendo.

Pois procurar uma maior aproximação com um sistema cujo código penal prevê, no século 21, o apedrejamento e além disso o aplica, equivale a escarnecer de toda a esquerda que se diz "progressista" e não obstante apoia este sistema. O caso de Sakineh é suficiente para o homem comum dar-se conta do que está acontecendo no Irã e do que defendem os clérigos que o governam. A situação também expõe toda a hipocrisia dos "imbecis úteis" com seu verniz de intelectualismo pelo qual ninguém mais se importa.

O amigo mais notável de Ahmadinejad e de seus aliados que, em razão do caso de Sakineh, foi alertado quanto à identidade daquele ao qual está se aliando é talvez Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil. É impossível que o povo brasileiro, com sua cultura da alegria e seu amor pela vida aceite que seu presidente seja amigo de um regime que apedreja homens e mulheres submetendo-os à morte lenta.

Não é possível que o povo brasileiro se orgulhe de ver o homem que escolheu como seu representante beijando e abraçando um perverso ditador saído do obscurantismo. Como é possível que o povo brasileiro sancione a amizade com um regime que tenta prender o advogado de Sakineh por defender sua cliente?

Como é possível que o povo brasileiro sancione a amizade com um regime que faz reféns a mulher inocente, o cunhado e o sogro do advogado de Sakineh, separando a filha de 7 anos de seus pais?

Quem sabe Lula, por fim, tenha se dado conta de quem é aquele ao qual pretende se aliar. Se for assim, já será uma vitória para Sakineh e para todos os que tentam salvá-la. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ATIVISTA IRANIANO

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