Murad Sezer / Reuters
Murad Sezer / Reuters

O que se sabe e o que não se sabe sobre o desaparecimento do jornalista saudita na Turquia

Jamal Khashoggi foi visto pela última vez no dia 2 de outubro, quando entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul

O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2018 | 08h32

O desaparecimento do jornalista Jamal Khashoggi desencadeou uma disputa diplomática entre a Arábia Saudita e a Turquia, um alvoroço bipartidário no Congresso dos Estados Unidos, temores de incerteza em Wall Street e no Vale do Silício sobre como lidar com Riad, e um certo incômodo entre a Casa Branca e seu aliado árabe mais próximo.

Na manhã de segunda-feira, 15, o presidente Donald Trump disse em sua conta no Twitter que conversou sobre o caso com o rei Salman, que negou qualquer envolvimento do reino, e enviou seu secretário de Estado, Mike Pompeo, a Riad para conversar com o líder saudita.

Funcionários americanos especulam que, se a Arábia Saudita confirmar as suspeitas de que Khashoggi foi morto, iria sugerir que elementos nocivos agiram sozinhos e não sob ordem dos mais altos níveis de poder do reino. Autoridades turcas descreveram o caso como um assassinato terrível e que acabou sendo acobertado.

A atenção dada à situação de Khashoggi tem prejudicado a imagem do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman no Ocidente. Com 33 anos, ele trabalhou para projetar a imagem de um reformista determinado a expandir a cultura e a economia do reino, mas o desaparecimento do jornalista está enfraquecendo os seus esforços para atrair empresas de tecnologia e investidores de Wall Street à Arábia Saudita, e ajudar a diminuir a dependência de petróleo do país.

Por que Washington está tão interessado no caso?

Jamal Khashoggi, de 59 anos, era muito conhecido e apreciado por jornalistas e diplomatas que viajaram ao reino. Ele trabalhou nas embaixadas sauditas em Washington e Londres, e alguns suspeitam que também trabalhava para a inteligência saudita. Ao longo dos anos, Khashoggi se estabeleceu como um porta-voz não oficial da família real.

Sua tendência independente e sua empatia pelos países ocidentais o tornaram um contato importante para jornalistas e diplomatas que buscam entender a perspectiva do reino saudita. Com a chegada de Mohamed bin Salman, Khashoggi sentiu que não havia mais lugar para sua independência no país. Ele se mudou então para Virgínia, nos EUA, tornou-se colunista do jornal The Washington Post e se converteu em um dos maiores críticos ao reino saudita no Ocidente.

Qual foi a última vez que Khashoggi foi visto em público?

Khashoggi foi ao consulado saudita em Istambul na tarde do dia 2 de outubro para recolher um documento. Ele precisava de um certificado das autoridades sauditas para que pudesse se divorciar de sua ex-mulher e se casar com uma cidadã turca.

As autoridades da Turquia divulgaram imagens de uma câmera de segurança que mostram o jornalista entrando no prédio do consulado, mas alegam que não há registros de que ele tenha saído. Apesar de os sauditas insistirem que ele deixou o local em segurança, ainda não apresentaram nenhuma evidência.

Khashoggi foi capturado pelo príncipe herdeiro?

Se Khashoggi foi morto ou sequestrado por forças sauditas, o príncipe herdeiro teria de ter autorizado a ação, segundo especialistas no funcionamento interno do reino. Bin Salman tem mostrado pouca tolerância aos críticos do governo saudita, e muitos dos que falaram foram presos. Desta forma, é possível presumir que o príncipe não era fã do jornalista.

Desde o desaparecimento de Khashoggi, ficou claro que ele tinha ligação com a Irmandade Muçulmana, um movimento internacional islâmico que nas últimas décadas abraçou as eleições como a melhor forma de promover mudanças na região, outro ponto que pode ter desagradado o príncipe.

Até recentemente, a Arábia Saudita recebia membros desse grupo que fugiam de perseguição em outros Estados árabes, principalmente o Egito. As insurreições da Primavera Árabe convenceram os líderes da família real de que a Irmandade também os ameaçava e Riad qualificou o grupo como uma organização terrorista.

Agências de inteligência americanas afirmaram que interceptaram comunicações sauditas sobre um possível sequestro de Khashoggi como um pedido de Bin Salman. Mas não há indicações de que essas discussões estariam relacionadas à visita do jornalista ao consulado.

Agentes sauditas sequestraram ou mataram Khashoggi?

Oficiais turcos, falando sob condição de anonimato, disseram que o seu governo tem evidências detalhadas de um assassinato sangrento, o qual alegam que foi ordenado pela liderança saudita. No dia em que Khashoggi desapareceu, 15 agentes sauditas viajaram a Istambul em dois jatos particulares fretados por uma empresa ligada ao príncipe herdeiro e ao Ministério do Interior da Arábia Saudita. Autoridades turcas alegam que os agentes esperaram Khashoggi dentro do consulado e o mataram duas horas após a sua chegada.

Entre os agentes, estaria um médico especializado em autópsias. Além disso, o grupo teria levado uma serra de ossos para o prédio e usado para desmembrar Khashoggi, de acordo com oficiais turcos. Contudo, Ancara ainda não tornou públicas as suas constatações.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, amigo pessoal do jornalista, já cobrou diversas vezes respostas dos sauditas, mas ainda não fez acusações específicas.

Se a Turquia tem evidências, por que não divulga?

Autoridades turcas alegam que esta seria uma forma de evitar a exposição de fontes de inteligência, que poderiam incluir informantes humanos ou vigilância eletrônica. Ainda não se sabe se as informações foram compartilhadas com aliados dos turcos, como EUA ou Reino Unido.

Especialistas ainda apontam que os turcos estariam buscando algum tipo de acordo com a Arábia Saudita para impedir a divulgação completa das informações.

De que lado Trump está?

O presidente mostrou sinais mistos de seus interesses no caso Khashoggi. Por um lado, reforçou que o jornalista não é um cidadão americano e que seu desaparecimento aconteceu muito longe do território americano. Trump já descartou várias vezes cortar a venda de armas para a Arábia Saudita, alegando que esses contratos trazem dinheiro e emprego para os EUA. Por outro lado, ele garantiu no fim de semana que haveria “punição severa” se ficasse provado que Riad matou Khashoggi. / NYT

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