''O que será de nós? Só temos mais 3 latas de atum'', desesperou-se mineiro

Difícil sobrevivência. Pouco alimento de que os 33 operários dispunham nos 17 primeiros dias de confinamento na mina chilena começou a escassear pouco antes de o grupo ser encontrado pelos socorristas; temperatura chegava a 40°C e umidade a 100%

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

A 622 metros de profundidade, a vida dos 33 mineiros na mina San José, era ainda mais dura do que se imaginava. A temperatura média era de 40°C e a umidade, de 100%. "Era como um bafo quente que penetrava no corpo, um calor insuportável", contou o socorrista Manuel González, o primeiro a descer na mina na cápsula Fênix.

Foi como passar mais de dois meses numa sauna. Os primeiros 17 dias de isolamento, quando ninguém sabia se eles estavam vivos ou não, foram os mais difíceis. Nas primeiras três horas de 5 de agosto, data do acidente, o deslizamento levantou tanto pó que não se enxergava nada. Assentada a poeira, eles começaram a planejar como iriam sobreviver - com uma colherada de atum e um copinho de leite a cada 12 horas. Depois, o leite estragou e o peixe enlatado começou a escassear. Passaram a comer apenas a cada 24 horas, até chegar a só uma colher de atum a cada 72 horas. A água potável acabou, e passaram a beber a água que estava dentro dos motores do maquinário lá embaixo, cheia de óleo. Quando sobravam apenas três latas de atum, Víctor Segovia disse a José Henríquez, o "pastor" do grupo, que fazia as vezes de líder espiritual: "O que será de nós, só temos mais três latas de atum". Henríquez respondeu. "Não se preocupe, a caixa de alimentos vai voltar a se encher", segundo contou Henríquez ao jornal local La Segunda. Estava começando a faltar oxigênio, e muitos andavam pela galeria, buscando mais ar.

Nessa altura, ninguém sabia que um duto que salvaria suas vidas estava sendo aberto - por esse cano é que foram enviados água, comida, microcâmera e telefone. Eles ouviam muito barulho de perfuração, mas muitas tentativas tinham fracassado, túneis empacavam. Uma manhã, encontraram uma perfuração e começaram a gritar de alegria - mas, ao examinar melhor, viram que era um buraco antigo, que não ia a lugar nenhum. "Estávamos esperando a morte", disse o mineiro Richard Villaroel ao jornal El Mercurio. Villaroel escondia de sua mãe que trabalhava na mina, porque ela sabia das condições precárias do lugar e se preocupava. Os mineiros tentaram de todas as maneiras demonstrar que estavam vivos: começaram a queimar pneus que estavam lá dentro, para ver se o sinal de fumaça chegava à superfície. O maior medo era que os socorristas desistissem, achassem que eles estavam mortos.

A vida deles era ouvir barulhos - enquanto havia o ruído de perfuração, estavam esperançosos. O silêncio gerava pânico. Eles pensavam que tinham desistido de perfurar para tentar encontrá-los. Finalmente, em 22 de agosto, o alarme não foi falso: um duto chegou ao refúgio onde eles estavam.

Cada um encontrou um jeito de passar o tempo. O ex-jogador de futebol e motorista de caminhão Franklin Lobos jogava dominó e ludo com Luis Urzúa. Mario Gómez passava o tempo todo escrevendo cartas - tanto que, quando chegou o duto, ele já tinha uma carta pronta para enviar a mulher dele, Lialianett Ramírez. Foi a primeira carta a atingir a superfície - depois, é claro, do bilhete que ficou famoso, o "estamos bem, no refúgio, os 33".

Edison Peña corria 10 quilômetros por dia, indo e voltando no espaço de 800 metros que separava o refúgio da galeria. A Yonni Barrios, o mineiro que ficou famoso pela briga entre sua mulher e sua amante, cabia o papel de enfermeiro: media a temperatura, pressão, examinava se havia infecção nos dentes e os olhos dos mineiros. Depois, passava relatórios para o ministro da Saúde pelo "gallofone", o intercomunicador inventado pelo empresário local Pedro Gallo.

Quando González, o primeiro resgatista, chegou ao refúgio, ele brincou: "Qual é o mineiro das duas mulheres?" Barrios entrou na brincadeira. "Acho melhor eu ser o último a ser resgatado."

Nem todo mundo se dava bem. Havia uma divisão clara entre o grupo dos funcionários da mina, a turma de Urzúa, e os terceirizados, que tentaram assumir a liderança na mina, mas não conseguiram.

O boliviano Carlos Mamani, que trabalhava havia pouco tempo na San José, também não conhecia muito bem o grupo. Mario Sepúlveda - o "Super Mario" que conquistou os chilenos com suas piadas e seu bom humor - também exercia papel de liderança. Todos os mineiros estão contando muito pouco sobre o que aconteceu nos primeiros 17 dias de isolamento, porque fizeram um pacto de silêncio entre eles. Muitos, também, assinaram contratos de US$ 20 mil a US$ 50 mil para dar entrevistas exclusivas.

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