Todd Heisler/NYT
Todd Heisler/NYT

O que significa a questão racial e cultural em Cuba para Biden

Recentes protestos desafiam tabus há muito arraigados e de consequências imprevisíveis para o regime

Javier Corrales, Americas Quarterly

18 de dezembro de 2020 | 05h00

No final de novembro, um grupo de aproximadamente 500 cubanos realizou um pequeno protesto na frente do Ministério da Cultura. O grupo, agora chamado N27, exigia o fim da permanente perseguição contra um jovem movimento social de artistas e músicos, em sua maioria afro-cubanos, o Movimento San Isidro.

Como o movimento ‘Vidas Negras Importam’, nos Estados Unidos, o protesto do N27 foi deflagrado por causa da brutalidade da polícia contra afro-cubanos. O incidente que está na sua origem foi a prisão do rapper Denis Solís, um dos integrantes do San Isidro.  

O incidente foi gravado por um celular e viralizou nas redes sociais, provocando consternação  – e forte apoio a Solís e a seus defensores. Parte do apoio veio dos costumeiros suspeitos, conhecidas figuras dissidentes. Por outro lado, também parece ter conquistado a imaginação de recém-chegados: artistas, intelectuais e até membros do clero que tradicionalmente defendiam o regime cubano.

E também como ‘Vidas Negras Importam’, o protesto cubano experimentou o aumento de suas reivindicações. O que começou como um modesto apelo para mais respeito pela autonomia do movimento, e a libertação de Solís, agora se tornou um protesto contra o sistema cubano. Ao mesmo tempo, o momento atual – quando um novo presidente americano está prestes a assumir a presidência – levanta questões sobre como Washington responderia, se é que o fará.

É importante compreender a magnitude do que o movimento tenta realizar. Seus integrantes contestam três das principais normas históricas de Cuba.

A primeira é a proibição de protestos em grupo. Em Cuba, nunca é bom protestar em grupo. Um indivíduo pode protestar sozinho em um evento patrocinado pelo partido, em uma reunião de um comitê de defesa da revolução, ou mesmo no local de trabalho. Você pode reclamar da corrupção, da burocracia, da má qualidade dos serviços públicos e das decisões da administração. 

O que não pode fazer é organizar um grupo de maneira a respaldar a sua reivindicação. Mais do que a liberdade de expressão, o governo cubano persegue a liberdade de associação. No momento em que duas ou mais pessoas se reúnem em protesto, as forças de segurança agem rápida e decisivamente e muitas vezes com brutalidade. O resultado é que a vida associativa em Cuba continua incipiente, limitada e vulnerável, o que é uma exceção em uma região reconhecida mundialmente por ter alguns dos movimentos sociais mais poderosos do mundo.

A segunda norma contestada pelo N27 é a proibição de críticas ao sistema, ou mais especificamente do sistema de disciplina de Cuba. O regime cubano, como a maioria das ditaduras mais maduras, atualizou o seu sistema de disciplina adequando-o à era da informação. 

As matanças, os pelotões de fuzilamento, a doutrinação em massa e as prisões de longo prazo das primeiras décadas foram substituídas ou suplementadas por formas públicas de atacar a reputação de pessoas, ameaças abertas aos membros da família, cuidadoso monitoramento das mensagens nas redes sociais, controle das oportunidades de emprego, e detenções de curto prazo. O movimento N27 pede o fim deste sistema de disciplina.

A dimensão do protesto pode ser mínima, mas suas reivindicações já não são. Desafiando estas normas, o N27 poderia perfeitamente ir longe demais. Afinal, a proibição das associações e o uso maciço da disciplina são as únicas coisas que mantêm vivo este antigo regime. 

Ao mesmo tempo, o movimento N27 é contrário à terceira e última norma: ele intensifica os ataques contra o sistema colocando a questão da justiça racial no centro e em primeiro lugar.

É chocante que Cuba, um país com uma história de racismo tão longa e bem documentada, tenha se mostrado tão indiferente à injustiça racial. A Revolução Cubana, como muitos outros regimes da América Latina do século 20, abraçou o mito da igualdade racial. 

Ou seja: os americanos são racistas e segregacionistas; nós ao contrário abraçamos a nossa herança mista. Em Cuba, o mito da igualdade social foi reforçado pelo argumento oficial de que o capitalismo é a fonte do racismo e a educação, o seu antídoto. Eliminando o capitalismo e dando educação a todos, a questão do racismo estará resolvida.

Em termos históricos, qualquer um que em Cuba conteste este sacrossanto discurso do triunfo racial seria sumariamente dispensado. Muitas vezes literalmente. Em 2013, Roberto Zurbano, um editor literário que ousou publicar um artigo no jornal The New York Times intitulado “Para os pretos em Cuba, a Revolução não começou'', perdeu o emprego.

Evidentemente, Zbano estava certo. O racismo não está vinculado a um tipo de economia ou tratado com um único tipo de política. E no entanto, Cuba recusou ir além desta fácil abordagem do racismo. Durante anos, a liderança do país continuou muito branca. Como se dissesse: “Representação racial: quem precisa disso?”

Embora nos últimos anos as coisas tenham mudado um pouco em termos de representação, as mudanças continuam mínimas. De fato, hoje há mais pretos na liderança, mas os cubanos pretos continuam sendo excluídos do novo modelo econômico, como afirma Zurbano. A maioria dos empregos no setor externo destina-se a cubanos brancos (os “presentables”, como alguns os chamam). A maior parte das oportunidades para migrar, e portanto para obter as remessas, vão para cubanos brancos. Consequentemente, o racismo continua desproporcionalmente indecente.

O atual protesto em Cuba certamente não é o primeiro, nem o maior, nem o mais audacioso a se realizar na Cuba pós-soviética. No início dos anos 2000, o projeto Varela, uma iniciativa que pedia reformas democráticas, conseguiu mais de 11 mil assinaturas antes que os seus líderes fossem perseguidos ou mortos. Desde 2003, as Senhoras de Branco, um grupo de mães e mulheres parentes de prisioneiros políticos, realizaram diversas passeatas em toda a ilha. Elas também foram presas ou perseguidas  por multidões patrocinadas pelo governo.

A novidade a respeito do N27 é sua tentativa de apontar o dedo para o sistema apontando para o racismo do sistema. Como um movimento irmão também espera destacar-se, o movimento autônomo dos LGBT em Cuba, o N27 depara-se com os óbvios desafios de todos os movimentos de identidade política contemporâneos. Para montar uma coalizão societária de várias classes em uma nação em que as maiorias são complacentes com esta forma de desigualdade, obter o apoio internacional torna-se, também, é claro, um desafio. 

O governo do presidente eleito Joe Biden, que chega ao cargo mais informado do que o seu antecessor a respeito da importância da política de identidade, da justiça racial e das questões de sexualidade, deveria estar preparado para tratar deste novo capítulo na história de Cuba.

A escolha não deveria ser o ultrapassado debate entre dobrar ou retirar as sanções americanas. Biden precisa abandonar o binário infrutífero que caracterizou a última década de política externa americana em relação a Cuba. A política de “pressão máxima” do presidente Donald Trump produziu dois objetivos indesejáveis: a consolidação da liderança e a crise humanitária. E a política de concessões do ex-presidente Barack Obama em relação a Cuba sem uma contrapartida produziu um passe fácil para os repressores de Cuba. Estas estratégias binárias não funcionaram.

 

Biden se depara com a oportunidade de tornar as sanções econômicas em instrumentos de negociação. Estes instrumentos precisam ser calibrados em resposta às mudanças das autoridades cubanas, algo que Obama não se mostrou disposto a fazer. Biden também se defronta com a oportunidade de criar uma coalizão internacional de esquerdistas para pressionar o regime cubano, algo que Trump não teve autoridade moral (ou disposição) para organizar.

Biden poderá muito bem conseguir. Ele aparentemente tem experiência suficiente em realpolitik para transformar, e não para acabar com o regime de sanções. Ele também dispõe das credenciais internacionais para montar uma coalizão da esquerda, e não apenas da direita, com a finalidade de respaldar os próprios esforços. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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