O que virá depois do bombardeio?

O que virá depois do bombardeio?

Maior desafio dos Estados Unidos, agora, deve ser a presença de tropas russas no campo de batalha

O Estado de S.Paulo

07 Abril 2017 | 05h00

Para o presidente Donald Trump, escolher alvos e lançar mísseis para punir o regime sírio pelo uso de armas químicas esta semana pode ter sido uma decisão relativamente simples. O grande problema é o que vem depois.

Os militares americanos vinham preparando opções para um ataque contra o presidente Bashar Assad desde bem antes de 2013, quando o ditador sírio matou mais de mil pessoas de seu próprio país em um devastador ataque químico. O novo ataque na terça-feira, atribuído ao regime de Assad, matou dezenas de civis e provocou uma resposta do Pentágono, que lançou 59 mísseis contra uma base aérea síria ontem.

“As questões básicas não mudaram”, disse Phil Gordon, um alto funcionário da Casa Branca no governo Barack Obama que participou de muitos debates sobre como punir Assad. “Há uma série de ataques militares que podem ser usados para destruir a capacidade de produzir armas químicas dos sírios. Mas, se você faz isso, o que eles fazem em resposta?”

A grande diferença em relação a 2013, quando o presidente Obama ameaçou pela última vez ataques aéreos contra a Síria, é que hoje os riscos de o conflito se espalhar são muito maiores. O maior desafio que Trump e seus comandantes enfrentam agora é a presença de tropas russas no campo de batalha. E os sistemas de defesa aérea russos são capazes de derrubar os aviões americanos. Atualmente, as tropas russas estão no meio das tropas sírias, e qualquer ataque sobre um alvo militar sírio pode acertar também os militares russos.

O general aposentado John Allen, que coordenou a campanha contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria durante a administração de Obama, afirmou que os ataques militares poderiam ter tido um impacto “decisivo” na guerra se tivessem sido feitos 2013. Ele descreve como “devastadora” a decisão de Obama de não fazer os ataques. “É muito mais difícil agora”, afirmou. “Os Estados Unidos têm de se fazer uma pergunta: até onde queremos ir? Estamos prontos pra fazer uma ação mesmo com a possibilidade de que russos morram?”

A outra grande preocupação são os sistemas de defesa aérea da Síria e da Rússia, que não têm alvejado os aviões dos EUA porque as aeronaves americanas estão em grande parte concentradas na luta contra o Estado Islâmico, um inimigo comum. Se os aviões americanos forem abatidos ou forçados a atacar de volta sírios e russos, os EUA poderiam ser colocados no centro da confusa guerra civil da Síria. Isso não só colocaria a vida dos americanos em maior risco, mas tornaria a guerra dos EUA contra o Estado Islâmico, a qual Trump afirmou ser prioritária na sua política externa, muito mais difícil. Trump poderia mitigar alguns desses riscos se assegurasse aos russos que os ataques foram pensados exclusivamente para punir Assad por usar armas químicas, não para ampliar a guerra civil. / The Washington Post

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