Yauhen Yerchak/EFE
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O que você precisa saber sobre Alexander Lukashenko, 'o último ditador da Europa'

Forçar o pouso de um avião comercial e prender um jornalista que estava a bordo foi a mais recente tentativa do presidente belarusso de esmagar a dissidência

Claire Parker / Especial para The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 05h00

Belarus atraiu críticas da comunidade internacional por forçar o pouso de um avião comercial, no domingo, e prender um jornalista que estava a bordo. A súbita ordem para a aterrissagem do voo da Ryanair, que alguns líderes europeus qualificaram como terrorismo de Estado, levantou preocupações de que voar sobre países  governados por regimes repressivos pode ser perigoso para ativistas e jornalistas. E marcou a mais recente tentativa do presidente belarusso, Alexander Lukashenko, com frequência chamado de “último ditador da Europa”, de esmagar a dissidência.

A seguir, tudo o que você precisa saber sobre o líder belarusso.

Quem é Alexander Lukashenko?

Lukashenko, de 66 anos, ocupou cargos no Exército soviético, na juventude comunista e no Partido Comunista quando Belarus era parte da União Soviética. Foi eleito para o Parlamento da República Socialista Soviética de Belarus em 1990 e foi o único deputado que se opôs ao acordo que levou à dissolução da União Soviética.

Ele se tornou o primeiro presidente da República de Belarus em 1994. Seu website oficial o descreve como “um político do povo” e o “presidente das pessoas comuns”. Mas seu governo de quase três décadas foi marcado por irregularidades eleitorais, abusos de direitos humanos e manobras para consolidar o poder.

Em 1996, Lukashenko persuadiu eleitores a aprovar emendas constitucionais que expandiram a autoridade da presidência. Quando países ocidentais criticaram a manobra, ele expulsou temporariamente embaixadores da União Europeia e dos Estados Unidos.

Lukashenko recebeu significativo apoio financeiro e político da Rússia, que é uma importante aliada em disputas com o Ocidente. Mas Belarus resiste ao esforço russo por um Estado unificado. Maria Zakharava, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, defendeu o governo belarusso após a aterrissagem forçada, acusando os EUA de hipocrisia.

Como ele tem tratado a oposição?

Lukashenko não tolera dissidência. As eleições que ele venceu foram marcadas por alegações de fraude. Ao longo da maior parte de seu tempo no poder, ele conseguiu esmagar protestos, que com frequência eram pequenos e restritos a Minsk, segundo reportou a Bloomberg News.

Mas a eleição de 2020 causou agitação em Belarus e colocou o líder autocrático novamente sob críticas. Lukashenko conseguiu afastar rivais da disputa eleitoral de agosto, mas a líder opositora Svetlana Tikhanovskaya, que atraiu grandes multidões em comícios de campanha, foi autorizada a concorrer.

Lukashenko declarou-se vitorioso pela conquista de seu sexto mandato, com 80% dos votos, um resultado que muitos líderes ocidentais rejeitaram, qualificando como fraudulento. Lukashenko insistiu que nenhuma lei foi violada durante a eleição. Tikhanovskaya fugiu do país, e dezenas de milhares de belarussos protestaram contra o resultado.

As manifestações, alimentadas por uma economia trôpega e pelo que críticos qualificaram como uma falta de habilidade em lidar com a pandemia de coronavírus, marcaram a mais significativa ameaça à sua manutenção no poder desde que ele assumiu o cargo. “Vocês estão dizendo que as eleições foram injustas e que querem eleições justas?”, perguntou ele a trabalhadores reunidos na Fábrica de Tratores Motorizados de Minsk, em agosto. “Sim”, ouviu-se. “Estou respondendo à pergunta. Tivemos eleições. Até que vocês me matem não haverá outras.”

Milhares de pessoas foram presas e pelo menos três morreram “como resultado de ações policiais” no início da onda de protestos, em agosto, de acordo com o Human Rights Watch. Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas receberam relatos de mais de 450 casos de tortura e maus-tratos de presos após a eleição.

Tikhanovskaya emitiu um “Ultimato do Povo”, exigindo que Lukashenko deixe o poder até o fim de outubro. Quando ele insistiu em se manter no cargo, dezenas de milhares de belarussos tomaram as ruas, e muitos foram dispersados com violência pelas forças de segurança.

As manifestações antigoverno continuaram ao longo do outono, assim como a repressão de Lukashenko: a polícia prendeu mais de 25 mil pessoas até meados de novembro, afirmou o Human Rights Watch, mais de 100 personalidades da oposição entre elas. Em novembro, a Belarus colocou Roman Protasevich, o jornalista arrancado do avião no domingo, em uma lista de terroristas procurados, acusando-o de três crimes relacionados a protestos.

Na semana passada, Lukashenko sancionou uma lei que protege policiais e forças de segurança de responsabilização por disparar contra manifestantes. O governo de Lukashenko também continuou a repressão contra jornalistas, prendendo um profissional que trabalhava como freelancer para o serviço internacional da rede alemã Deutsche Welle e tirando do ar o principal site de notícias independente do país, Tut.by, este mês.

Como o Ocidente reagiu?

Países ocidentais impuseram sanções contra o governo de Lukashenko por variadas razões desde que ele assumiu o cargo. Lukashenko critica com frequência o Ocidente por se intrometer em assuntos domésticos.

Os EUA impuseram restrições de viagem e sanções econômicas contra indivíduos e entidades estatais de Belarus após a eleição de 2006, que o governo americano criticou, qualificando como “nem livre, nem justa”. Belarus retaliou contra um endurecimento nas sanções, em 2008, expulsando dezenas de diplomatas americanos. As relações entre Belarus e os países ocidentais melhoraram um pouco entre 2015 e 2016, e EUA e Belarus anunciaram a retomada das relações diplomáticas em 2019.

Mas após a eleição de 2020 e os subsequentes protestos em Belarus, os EUA impuseram uma nova rodada de sanções a autoridades de Minsk. Desde que assumiu o cargo, em janeiro, o presidente Joe Biden bloqueou negociações com nove grandes empresas dos setores petrolífero e petroquímico e sancionou 109 autoridades.

A Europa, que também não reconhece o resultado da eleição de 2020, impôs novas sanções contra autoridades belarussas, incluindo Lukashenko, no outono. Líderes europeus reagiram com choque e indignação à aterrissagem forçada do avião da Ryanair e à prisão de Protasevich, no domingo. Na segunda-feira, eles concordaram em impor sanções contra Belarus e proibir companhias aéreas de seus países de voar no espaço aéreo belarusso. Letônia, Lituânia, Ucrânia e Reino Unido já conseguiram rearranjar as rotas para evitar o país.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, qualificou a ordem de Lukashenko para aterrissagem do avião como uma “afronta escancarada contra a paz internacional” e afirmou que o governo Biden exigiu uma investigação. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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