O que você sabe sobre a China está errado

A desaceleração contínua do crescimento econômico, a intensa luta pelo poder e os recentes escândalos políticos são prova da fragilidade chinesa

O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2012 | 03h05

Nos últimos 40 anos, os americanos demoraram a perceber o quanto seus rivais estrangeiros decaíram. Nos anos 70, eles pensavam que a União Soviética era um gigante - em ascensão apesar da corrupção e da ineficácia que corroíam os órgãos vitais de um regime comunista decadente.

No fim dos anos 80, temiam que o Japão fosse superar economicamente os Estados Unidos, mas o capitalismo de compadrio, as loucuras especulativas e a corrupção política evidentes durante os anos 80 causaram o colapso da economia japonesa em 1991.

O mesmo mal poderia estar afetando os americanos em relação à China?

A notícia mais recente de Pequim é indicativa da fragilidade chinesa: desaceleração persistente do crescimento econômico, grande quantidade de bens sem vender, crescimento dos empréstimos bancários podres, bolha imobiliária prestes a estourar, e uma luta acirrada pelo poder no topo combinada com intermináveis escândalos políticos. Muitos fatores que favoreceram a ascensão da China - como dividendo demográfico, descaso pelo meio ambiente, mão de obra super barata e acesso virtualmente ilimitado a mercados externos - estão minguando ou desaparecendo.

No entanto, o declínio da China não foi registrado pelas elites americanas, para não falar do público americano. O muito alardeado "pivô" para a Ásia do presidente americano, Barack Obama, anunciado em novembro passado, tem como premissa a continuidade da ascensão da China; o Pentágono afirmou que até 2020, aproximadamente, 60% da frota da Marinha estarão estacionados na região da Ásia-Pacífico.

Washington também está estudando o deslocamento de sistemas antimísseis lançados do mar para o Leste Asiático, uma medida que reflete temores americanos com a crescente capacidade da China em mísseis.

Na corrida para a eleição presidencial americana de 6 de novembro, tanto democratas como republicanos enfatizaram a força chinesa percebida por razões de segurança nacional e expediência política. Os democratas usam o poder econômico crescente da China para pedir mais investimentos públicos em educação e tecnologia verde.

Declínio. No fim de agosto, o Center for American Progress e o Center for the Next Generation, dois think tanks de esquerda, divulgaram um relatório prevendo que a China terá 200 milhões de estudantes diplomados em 2030.

O relatório (que também estima o progresso da Índia na criação de capital humano) pinta um quadro sombrio do declínio americano e pede uma ação decisiva. Os republicanos justificam um aumento dos gastos com defesa nesta era de déficits estratosféricos, em parte, citando previsões de que a capacidade militar da China continua a crescer acompanhando a expansão da economia do país.

A plataforma do Partido Republicano para 2012, divulgada no fim de agosto na Convenção Nacional Republicana, diz: "Diante do acelerado aumento das forças militares da China, os Estados Unidos e nossos aliados precisam manter capacidades militares apropriadas para desencorajar qualquer comportamento agressivo ou coercitivo da China contra seus vizinhos".

O descompasso entre os problemas em fermentação na China e a aparente impressão inabalável das forças chinesas persiste apesar de a mídia americana cobrir exaustivamente a China, em particular as fragilidades internas do país.

Uma explicação para esse descompasso é que a as elites e os americanos comuns continuam mal informados sobre a China e a natureza de seus desafios econômicos nas próximas décadas.

Raízes profundas. A desaceleração econômica corrente em Pequim não é nem cíclica nem o resultado de uma demanda externa fraca por bens chineses. Os males econômicos da China têm raízes muito mais profundas: um Estado autoritário dilapidando capital e afugentando o setor privado, ineficiência sistêmica e falta de inovação, uma elite governante rapace interessada exclusivamente no enriquecimento pessoal e na perpetuação de seus privilégios, um setor financeiro dolorosamente subdesenvolvido, e crescentes pressões ecológicas e demográficas.

Mesmo para os que acompanham a China, a sabedoria dominante é que, apesar de a China ter entrado num terreno acidentado, seus fundamentos continuam fortes.

As percepções domésticas dos americanos influenciam a maneira como eles veem seus rivais. Não é por acaso que o período dos anos 70 e fim dos 80 quando os americanos não perceberam sinais de declínio de rivais corresponderam a uma intensa insatisfação com o desempenho americano ( por exemplo, o "discurso do mal-estar" do presidente Jimmy Carter em 1979).

Hoje, a China, cuja taxa de crescimento está caindo de 10% para 8% ao ano (por enquanto) parece muito bem em comparação com uma América onde o crescimento anual se arrasta abaixo de 2% e o desemprego persiste acima de 8%. Aos olhos de muitos americanos, as coisas podem estar ruins por lá, mas estão muito piores por aqui.

As percepções de uma China forte e agressiva também persistem por causa do comportamento de Pequim. O Partido Comunista Chinês que governa o país continua a explorar sentimentos nacionalistas para reforçar suas credenciais como defensor da honra nacional da China.

A mídia estatal e os manuais de história chineses alimentaram de tal forma a geração jovem com uma dieta de fatos distorcidos, xenófobos, de consumadas mentiras e mitos nacionalistas que é fácil provocar sentimentos antiocidentais e antinipônicos.

Ainda mais preocupante é a posição inflexível de Pequim em disputas territoriais com aliados asiáticos fundamentais dos EUA como o Japão e as Filipinas. O risco de que uma desavença sobre territórios marítimos disputados, em especial no Mar do Sul da China, possa levar a um conflito armado real faz muitos nos Estados Unidos acreditarem que não podemos baixar a guarda diante da China.

Infelizmente, esse descompasso entre a percepção americana da força chinesa e a realidade da fraqueza chinesa tem consequências reais adversas.

Pequim usará a retórica antichinesa e o fortalecimento da posição de defesa americana no Leste Asiático como evidência cabal da hostilidade de Washington. O Partido Comunista culpará os Estados Unidos por suas dificuldades econômicas e revezes diplomáticos.

A xenofobia poderá se tornar um importante recurso para um regime em luta para sobreviver a tempos difíceis. Muitos chineses já consideram os EUA responsáveis pelas recentes intensificações da disputa no Mar do Sul da China e acreditam que os EUA incitaram Hanói e Manila ao confronto.

Descontinuidade. O efeito de maior consequência desse descompasso é a perda de uma oportunidade para repensar a política americana para a China e se preparar para uma possível descontinuidade na trajetória da China nas duas próximas décadas. O pilar central da política de Washington para a China é a manutenção das coisas tal como elas estão, um mundo em que se supõe que o regime do Partido Comunista se sustentará por décadas.

Pressupostos parecidos sustentaram as políticas de Washington para a ex-União Soviética, a Indonésia de Suharto, e, mais recentemente, o Egito de Hosni Mubarak e a Líbia de Muamar Kadafi. Desconsiderar a probabilidade de mudança de regime em autocracias aparentemente invulneráveis sempre foi um hábito entranhado em Washington.

Estratégia alternativa. Os Estados Unidos deveriam reavaliar as premissas básicas de sua polícia chinesa e considerar seriamente uma estratégia alternativa, uma que se baseasse no pressuposto de uma solidez chinesa em declínio e na crescente probabilidade de uma inesperada transição democrática nas próximas duas décadas. Se tal mudança vier, o panorama geopolítico da Ásia ficaria irreconhecível.

O regime norte-coreano poderia desmoronar quase do dia para a noite, e a Península Coreana seria reunificada. Uma onda regional de transições democráticas derrubaria os regimes comunistas no Vietnã e no Laos.

A maior e mais importante incógnita, porém, diz respeito a própria China: pode um país fraco ou em processo de enfraquecimento com 1,3 bilhão de habitantes, conduzir uma transição pacífica para a democracia? É prematuro descartar por completo a capacidade de adaptação e renovação do Partido Comunista, contudo.

A China pode voltar com todo o vigor dentro de alguns anos, e os Estados Unidos não devem ignorar essa possibilidade. Mas a morte do partido não deve ser descartada, e os sinais correntes de problemas na China forneceram pistas valiosas dessa mudança radical altamente provável. As autoridades americanas estariam cometendo outro erro estratégico de proporções históricas se as ignorarem ou interpretarem de maneira equivocada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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