O que Wisconsin significa

Republicanos esperam repetir contra Obama, em novembro, o desempenho que levou ao triunfo no Estado

DAN , BALZ, THE WASHINGTON POST, , É JORNALISTA, GANHADOR , DO PRÊMIO PULITZER, DAN , BALZ, THE WASHINGTON POST, , É JORNALISTA, GANHADOR , DO PRÊMIO PULITZER, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h02

O governador de Wisconsin, Scott Walker, proporcionou um modelo para republicanos que estão na corrida presidencial com sua vitória na eleição de recall de terça-feira: muito dinheiro, organização poderosa e um enorme entusiasmo de sua base. Conseguirá Mitt Romney ter tudo isso em novembro? Os dois lados analisarão o resultado como um sinal de que Wisconsin - que não vota em um candidato presidencial republicano desde 1984, mas tem sido ferozmente competitivo em duas das três últimas eleições - pode se tornar novamente um verdadeiro campo de batalha. Se o Estado ficar tão disputado como foi em 2000 e 2004, o mapa eleitoral ficará muito mais desafiador para o presidente Barack Obama.

Ao derrotar o prefeito de Milwaukee, Tom Barrett, Walker desferiu um golpe poderoso nos democratas, progressistas e nos sindicatos de Wisconsin, que juntos jogaram tudo que puderam na tentativa de mandar o governador para casa antes da metade do seu mandato. Não está tão claro se isso prejudicou significativamente o presidente, que manteve distância dessa disputa.

Romney foi rápido em apropriar-se dos resultados e extrapolar as implicações. Numa declaração lançada por sua campanha, ele disse: "Os resultados dessa noite ecoarão além das fronteiras de Wisconsin. O governador Walker mostrou que cidadãos e contribuintes podem contra-atacar - e vencer - os custos governamentais descontrolados impostos por dirigentes sindicais". Obama não comentou o desfecho.

Romney pode ter a expectativa de imitar o modelo de Walker em duas áreas. A primeira é o dinheiro. Walker levantou mais de US$ 30 milhões para sua campanha de recall e algumas das maiores doações excederam os limites normais em razão das leis que regem esse tipo de eleição.

Barrett levantou US$ 4 milhões. Romney não levantará muito mais do que Obama. Mas o provável candidato republicano pode contar com os supercomitês de ação política (Super-PACs, na sigla em inglês) republicanos para obter uma vantagem geral (mais informações nesta página).

Obama começou a campanha há mais de um ano em meio a suposições de que facilmente levantaria mais dinheiro que seu oponente republicano. Mas os consultores de Obama temem que serão pesadamente superados em gastos pelos Super-PACs do Partido Republicano. Tirando o estado da economia, essa potencial disparidade no financiamento é a maior preocupação da campanha. No fim das contas, o dinheiro talvez não decida a eleição, mas Romney e os republicanos hoje parecem levar vantagem nesse quesito.

A vitória de Walker foi uma vitória do partido. A Associação de Governadores Republicanos gastou mais de US$ 9 milhões nela. O Comitê Nacional Republicano, chefiado por Reince Priebus, um ex-presidente do Partido Republicano de Wisconsin, e o Partido Republicano estadual uniram-se para mobilizar eleitores. Tudo isso rendeu dividendos para definir Barrett e construir uma organização que se mostrou superior ao que muitos democratas consideraram uma excelente operação de mobilização própria que foi conduzida por seu partido e os sindicatos.

Divisão. Os democratas estavam divididos sobre as vantagens de seguir com o recall, mas, ante a determinação de suas bases em Wisconsin, não houve como evitar a eleição. Dirigentes da campanha de Obama temiam que ela tirasse recursos e energia da corrida presidencial. O Comitê Nacional Democrata (CND) recebeu críticas por não apoiar Barrett mais agressivamente. Se o resultado final fosse mais apertado, o presidente teria enfrentado críticas por não ter se empenhado por Barrett.

A presidente do CND, Debbie Wasserman Schultz, disse antes da eleição que o recall seria um treinamento para novembro da operação local dos democratas. O que os republicanos mostraram em Wisconsin foi a sua capacidade de fazer uma operação de mobilização de eleitores superior, ao menos nessa eleição. Os democratas duvidam que eles possam fazê-lo em outro lugar. Agentes de Obama dizem que veem poucas evidências de que Romney seja tão bem organizado quanto eles nos Estados com disputa apertada. Mas o esforço em Wisconsin ofereceu algo que o Partido Republicano poderá desenvolver.

A vitória de Walker também foi muito pessoal. Para os republicanos de Wisconsin, Walker é um herói, um astro do rock. Agora, ele poderá sê-lo nacionalmente também. Quando compareceu a um jantar do partido com Romney e o então pré-candidato Rick Santorum, alguns dias antes das primárias de Wisconsin, em abril, ficou claro que Walker era, de longe, o político mais popular no recinto. Os republicanos de Wisconsin podem admirar Romney, mas o entusiasmo por ele não se equipara à afeição por Walker. Romney precisará de parte desse entusiasmo por Walker se quiser vencer no Estado em novembro.

Há um outro elemento importante no modelo Walker para republicanos - convicção. Walker adotou uma posição controvertida ao enfrentar os sindicatos como parte de seu esforço geral para lidar com o déficit fiscal do Estado. Diante de um forte contra-ataque, ele sustentou sua posição. Admitiu que não havia pensado o suficiente em como vender seu programa e pagara um preço por isso. Mas não recuou das mudanças que implementou.

Isso faz de Walker o tipo de político com convicções que muitos republicanos querem hoje de seus líderes - um modelo imitado por alguns outros governadores republicanos por todo o país. Foi o que muitos eleitores republicanos acharam que faltou a Romney durante as primárias. Os republicanos de Wisconsin estavam dispostos a fazer de tudo para manter Walker no cargo. É duvidoso se farão o mesmo por Romney. As esperanças do presidenciável repousam em sua capacidade de alimentar o ódio anti-Obama na base republicana como principal motivador em novembro.

Se os resultados de terça-feira inflaram as esperanças republicanas para novembro, as sondagens de boca de urna ofereceram algumas evidências contrárias de que Obama ainda pode conservar algumas vantagens em Wisconsin à medida que a campanha esquentar. Quando perguntaram aos eleitores como eles votariam na eleição presidencial, Obama ficou na frente de Romney, embora sua margem tenha sido menor que os 14 pontos que ele teve na vitória em Wisconsin em 2008.

No total, cerca de 17% dos eleitores de Walker disseram que apoiariam o presidente na votação de novembro. Mais da metade se autodenominou independente. Mais eleitores de Wisconsin também consideram Obama superior a Romney em sua capacidade de ajudar a classe média. O presidente manteve uma estreita vantagem em quem provavelmente seria melhor para melhorar a economia. Um memorando do diretor de Wisconsin da campanha de Obama observa: "Não houve uma única pesquisa que mostrasse Romney na frente do presidente em Wisconsin".

Walker e o presidente têm de fato alguma coisa em comum. O governador não recuou dos elementos mais controvertidos de seu programa, mas procurou evitar jogá-los na cara dos eleitores. Sua principal mensagem foi semelhante à que o presidente vem usando em sua campanha pelo país: fizemos progressos, as coisas estão um pouco melhores, não voltem para onde estávamos antes de eu assumir o cargo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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