O quilômetro quadrado de liberdade em Sanaa

Fui a Sanaa, a capital, para um giro pela Praça Tahrir. Manifestantes montaram um mar de tendas grandes e pequenas, vermelhas e amarelas, e quando entrei vi um cartaz: "Bem-vindo ao quilômetro quadrado de liberdade." Todos por quem eu passava - mulheres, homens e crianças - faziam o sinal da vitória e gritavam, "Fora!" Não gritavam para mim, mas para o presidente Ali Abdullah Saleh.

Yasser Abdel Baqi / NYT, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2011 | 00h00

A Praça Tahrir de Sanaa é mais do que uma simples plataforma para expressar o ódio contra o regime; é um ponto de encontro, um centro de arte e literatura e um mercado onde iemenitas podem comprar comida ou bugigangas.

Vi um homem ferido com as palavras "Vamos morrer com certeza, então por que ter medo?" escritas em seu braço. Fui parado por um jovem usando uma insígnia de primeiros socorros, que garantiu que atendeu muitos manifestantes feridos, alguns deles baleados na cabeça ou no pescoço. No hospital de campanha encontrei um jovem farmacêutico. O ministro da Saúde, ele disse, tinha enviado remédios vencidos e pílulas anticoncepcionais ao hospital. Ele estava furioso. "O que querem que eu faça com anticoncepcionais?", perguntou.

Havia crianças por toda parte. Elas faziam fila para ter seus rostos pintados: a bandeira iemenita, numa face, e a palavra "Fora!" em outra. Um menino gritou "Fora para nós podermos crescer e viver!" Um jovem ativista me perguntou: "E depois que o regime Saleh cair? Será que a juventude ainda vai poder se expressar?" Ninguém sabe o que vai haver, mas ninguém está desistindo da luta. Num canto da praça, um músico tocava violão: "Vou ficando por aqui, vou ficando / Até o regime cair." Um homem pediu-me para fotografar seu braço. As palavras "Fora, assassino!" tinham sido marcadas a ferro em sua carne.

Agora estou de volta para minha casa em Áden. Sua população é menor do que a de Sanaa, mas os protestos aqui são mais intensos. Há alguns dias, visitei um amigo que tem estado nas ruas desde os primeiros protestos. Com a saída de Saleh, ao menos por enquanto, ele está exultante. Abraçando-me com força na despedida, ele disse: "Áden é o paraíso". Com o som de balas ainda ressoando pelas ruas, sei que isso ainda não é verdade. Mas espero estarmos chegando mais perto. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ATIVISTA IEMENITA

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