O rapto boliviano

Foi uma manhã qualquer de inverno em La Paz. A advogada Marcela Martínez Sempértegui saiu de carro de casa rumo a um tribunal. No caminho, deixou sua filha, Zarlet, de 17 anos, na empresa familiar de cosméticos no centro da movimentada capital boliviana. Caprichosa e com um que de designer, Zarlet mergulhava na arte de pintura corporal. Combinaram de se encontrar no mesmo lugar logo mais, ao meio-dia, e voltar para almoçar em casa. Foi a última vez que Marcela viu sua filha.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h02

Cinco meses depois, Marcela ainda espera notícias da sua filha mais velha. Mas tudo indica que Zarlet foi raptada. Um testemunho a viu e o homem que a agarrou e a conduziu às pressas pela rua. Seu celular estava fora do ar. Desde então, Marcela viu seu mundo desabar. Suspendeu toda sua atividade profissional enquanto lançou-se numa busca angustiada e incansável. Esbarrou numa tragédia nacional - ou até maior - escrita com tintas de política bolivariana.

Nos ministérios, delegacias e manifestações de rua, Marcela conheceu outras mães que também perderam seus filhos sem rastro. Quatro a cinco por dia desapareceram, apenas em La Paz, segundo os boletins de ocorrência. Quase todas meninas, com entre 13 e 17 anos. Aos poucos, surgiu o retrato falado do algoz: uma rede criminosa das mais rentáveis do momento, o narcotráfico em pareceria com o tráfico humano, com clientela internacional. Marcela hoje dedica-se a escancarar esse submundo e na terça-feira trará sua mensagem pela primeira vez ao Brasil, no seminário Mulheres no Mundo, organizado pela revista Newsweek e pelo portal The Daily Beast.

Recentemente, a polícia boliviana abordou um homem na fronteira com Chile, na companhia de duas adolescentes que dizia ser suas filhas. Não eram. A documentação era falsa. Segundo Marcela, as meninas sequestradas são mercadorias polivalentes. Escravas sexuais, podem ser "vendidas" várias vezes a diversos usuários. Assim o tráfico humano se distingue do mercado da droga, pois a cocaína é consumida só uma vez. Ao mesmo tempo, a menor raptada é a mula perfeita, eficiente portadora de drogas que viaja sem despertar segundos olhares.

Pior, esse nexo criminoso desfila tranquilamente debaixo do nariz oficial. Aí o crime e a política cruzam caminhos. Marcela, secretária nacional do partido oposicionista Movimento Nacionalista Revolucionário, fez de tudo para não politizar o caso. Queria encontrar sua filha, não hasteá-la na bandeira partidária. Mas a política, sempre explosiva na Bolívia, a encontrou. Recebeu ligações de um homem que ofereceu ajuda para localizar sua filha. Em troca, queria US$ 80 mil, o mesmo que ganharia se entregasse sua filha ao cliente estrangeiro. Na conversa, identificou-se como sindicalista da federação de cocaleiros, do Chapare, reduto boliviano tanto da droga quanto da base política do governo Morales.

Sucederam-se sete conversas em lugares públicos. Marcela, astuta, fez questão de marcar os encontros num restaurante da cadeia Burger King, equipado com câmeras de segurança. Pagou a primeira parcela do resgate e as imagens gravadas levaram a polícia ao chantagista, que está preso. Apesar dos desmentidos oficiais, o detento reafirmou sua afiliação ao sindicato cocaleiro e gabou-se da sua proximidade com o partido governante, o Movimento ao Socialismo.

Marcela não está acusando o governo de raptar sua filha. Longe disso. Mas chama atenção à indulgência oficial que seja por inépcia, seja por conveniência política, arou o terreno do crime que se alastra pelo país.

O governo Morales emite sinais confusos. Já expulsou a DEA, agencia antidrogas dos EUA, e desvinculou o país de um programa da ONU que proíbe mastigar a coca, a "folha sagrada", segundo Morales. Ao mesmo tempo, aceitou dinheiro de Washington para equipamentos de monitoramento do narcotráfico. Ainda ostenta um relatório das ONU que aponta queda do plantio da coca. Nesta semana, pelo menos, a palavra estará com Marcela.

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