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O rastro da visita do líder chinês, Xi Jinping, na Europa

Ele confirma seu talento de apresentar antes os problemas que afligirão a sociedade moderna

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2019 | 05h00

Xi Jinping voltou a seu país infinito após uma densa viagem à Europa Ocidental sem que nenhum incidente a perturbasse – ao contrário do que ocorre na maioria das viagens de seu colega americano, Donald Trump, que mantém o título de campeão invicto dos confrontos diplomáticos. Com Xi, o diálogo é entre pessoas de classe, bem informadas, cultas e atentas ao discurso do outro. Pelo menos na aparência. 

Um dos eixos das discussões sino-europeias foi a rivalidade entre os “multilateralistas”e os “unilateralistas”. Donald Trump, unilateralista convicto, detesta reunir-se com “blocos”, “uniões”, “assembleias”. Tudo que é supranacional o incomoda. Ele sem dúvida se sente muito mais à vontade numa luta na qual todos os golpes são permitidos. 

Emmanuel Macron, ao contrário, sente-se como um peixe n’água em reuniões de que participam muitos países. É por isso que ele ama a União Europeia, que congrega todos os países de um continente. Ele gosta de falar em nome de vários Estados. Isso explica a ginástica acrobática à qual ele se entregou durante a visita de Xi Jinping a Paris. Estava previsto inicialmente um tête-à-tête entre o chinês e o francês, mas Macron conseguiu mudar o formato da reunião. Ele convidou também a alemã Angela Merkel, uma das personalidades da União Europeia, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker. Jogada de mestre!

Xi Jinping entrou no jogo. Vale lembrar que ele, como Macron, é favorável às negociações multilaterais, ao livre mercado. Mas isso só é verdade em parte. Xi pratica o multilateralismo à sua maneira, que não é a mesma de Macron. Ele tem em vista várias Europas: Europa Ocidental (Alemanha, França, etc), Europa do Sul, Central, Oriental... Com cada uma ele fala de um modo. Assim é, no fundo, o senhor Xi: multilateralista, mas jogando com a carta bilateral sempre que pode. 

Pequim lançou o que chama de “nova Rota da Seda” – um gigantesco projeto pelo qual serão investidos bilhões de euros em países europeus para melhorar sua infraestrutura (portos, rodovias, etc.) ao longo do futuro traçado da nova Rota da Seda. 

Eis porque Xi reservou para a Itália a primeira etapa de sua visita. Ocorre que a Itália se mostrou subitamente favorável ao projeto chinês, pouco se lixando se outros países europeus e a Comissão Europeia vejam com reservas o que pode se tornar uma apropriação chinesa do sistema de produção europeu.

Em Roma, Xi abriu largamente a burra para se infiltrar no aparelho econômico italiano, investindo nos portos de Gênova e de Trieste. Isso justifica certas desconfianças da Comissão de Bruxelas, convencida de que essa Rota da Seda pode se tornar um instrumento sob medida para fracionar a unidade e coesão da UE.

Frente a essas ofensivas sutis, Macron quis mostrar a Xi que a Europa estava ali, com três pesos-pesados: ele e seus dois convidados, Angela Merkel e Jean-Claude Juncker. Foi uma boa tática do presidente francês. Infelizmente, os três campeões europeus não estão no melhor de sua forma. 

Macron, apesar de decidido e inteligente, sofreu por sua negligência e vaidade uma queda de popularidade. Continua sendo um homem poderoso. 

O segundo campeão escalado para enfrentar o chinês, o presidente e “homem forte” da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, está em fim de mandato. Chegamos a Angela Merkel, a alemã que foi por muito tempo a verdadeira locomotiva da UE. Mas ela também está no ocaso e sua autoridade, enfraquecida. 

Macron jogou bem e soube utilizar com habilidade seu cacife para mostrar ao imperador chinês a vitalidade do conjunto europeu. Ele conseguiu demonstrar que essa UE, da qual tantas vozes já anunciaram o declínio e até a morte, mantém seus músculos e cérebro. 

Talvez esse sobressalto ajude a consolidar uma Europa varada de flechas. Macron está apto a assumir, como sucessor de Merkel, o papel de figura dominante na UE, talvez até salvá-la. A má notícia é que, no momento, ele está sozinho para realizar esse trabalho de titã./ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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