Evan Vucci / AP
Evan Vucci / AP

O rei vem quando quer

Trump anula o tempo passado conforme seus interesses e cancela decisões e acordos

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 05h00

O encontro entre Trump e Kim Jong-un foi um acontecimento impensável que se tornou realidade. Uma ópera bufa escrita e interpretada pelos dois chefes de Estado mais insanos do planeta, os mais misteriosos e perigosos e os menos estáveis, que se tornaram os inventores das geografias de amanhã.

Poderíamos enumerar por longo tempo os efeitos devastadores ou benéficos desse “tiro certeiro” realizado em comum por Trump e Kim. Poderíamos também analisar os sinais discretos que o comportamento dos dois homens enviaram à população de todo o mundo. 

Nada nessa “commedia dell’arte” parece ser por acaso, mesmo os tapas nas costas que os dois se deram sorridentes.

Acho que é muito cedo para comentar isso: de um lado, essa reviravolta tão violenta deve ser julgada no longo prazo. Em segundo lugar, tanto um quanto o outro (especialmente Trump) já mostraram o valor que dão às promessas e aos tratados. Amanhã, eles podem, sem nenhuma razão, fazer desmoronar o edifício que construíram juntos. Como comentar um fato que amanhã talvez não seja mais realidade?

+ Análise: Os vencedores e os perdedores na cúpula histórica entre Trump e Kim

Mas podemos tentar, acrescentando esse encontro em Cingapura às proezas anteriores de Trump. No sistema da monarquia absoluta, por exemplo, na França do século 17 (época do rei Luis XIV) um adágio resumia a Constituição do país: “O rei vem quando quiser”. Poderíamos jurar que Trump, embora não seja um erudito, conhece essa fórmula ou pelo menos a aplica espontaneamente. E entende que esta é uma arma absoluta para aquele que a detém. 

Esse controle do tempo se verifica em vários níveis. Primeiramente, é o domínio da indelicadeza que Trump utiliza quando, cansado das palavras, banalidades e repetições do mesmo assunto, ele decide sair às pressas para o aeroporto e desaparecer.

E ele se torna ainda mais ferozmente o mestre do tempo quando manifesta que pode torcer esse tempo como desejar, mesmo se ele já passou. Por exemplo, anunciando uma decisão que, no dia seguinte, ele a anula. 

Como, ao afirmar “vou ver Kim Jong-un” e, no dia seguinte, voltar atrás e dizer: “Não, não verei Kim, ele disse algumas coisas que não me agradam”, e mais tarde retificar sua decisão: “Pensando bem, eu o verei assim mesmo” e faz disso uma apoteose.

Em outras palavras, o tempo para Trump é maleável, submisso, obedece às vontades do “rei”. E “o rei faz do tempo aquilo que quiser”. Por exemplo, pode aceitar assinar, no Canadá, o comunicado do G-7 e, no dia seguinte, dizer que não o assinará.

E comete um sacrilégio maior ainda, anula o tempo passado: assim, mesmo que seu país tenha assinado os acordos de Paris sobre o clima, Trump, mestre do presente, do passado e do futuro, decide que esse tratado é inexistente, como se o “rei” apagasse o tempo ocupado por Obama na Casa Branca. E assim o passado se torna frágil, incerto, pode desmoronar sob nossos pés ou mudar de cor. 

Essa desenvoltura de Trump com relação a todos os instrumentos clássicos do poder político, e em particular “com relação ao tempo”, muitas vezes é considerada prova da sua fraqueza ou mesmo de idiotice. Um homem sem bússola e sem estrela polar, que não sabe mesmo onde pretende chegar, um sujeito inculto, antissocial, uma espécie de bárbaro que os senhores que saíram de Harvard ou da ENA, como Emmanuel Macron, vão engolir de um só golpe.

Infelizmente, Trump não é a figura irresponsável e idiota como as pessoas afirmam. Ele sabe manobrar a situação de modo terrível. Não leu Tocqueville, nem Platão ou Maquiavel. Mas ele os inventa e principalmente é capaz de mudar as regras do jogo em qualquer momento da partida. Políticos cultivados acreditam que estão jogando uma partida de xadrez, mas, na realidade, no momento seguinte, o jogo já se desenvolve em outros espaços e segundo regras que ninguém conhece, nem mesmo Trump. É isso que explica sua temível eficácia.

Mas o fato é que esse tipo de diplomacia só pode funcionar se for direcionada não para outros reis. Quando Xi Jinping pediu a Trump para poupar a gigante chinesa da comunicação, ZTE, que caiu nas malhas da lei americana por manter um comércio ilícito com a Coreia do Norte, Trump concordou gentilmente. Como tinha de enfrentar o rei da China, Trump se apressou em negociar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

Mais conteúdo sobre:
Donald Trump Kim Jong-un

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.