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O rescaldo dos Andes

Dizem que o fogo arde mais brando em altitudes elevadas. Ou nem tanto, a julgar pelo caso de Roger Pinto Molina, o senador boliviano que contrariou o presidente Evo Morales, se asilou na embaixada brasileira em La Paz e fugiu dos Andes, provocando uma crise diplomática cordilheira abaixo.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h04

Na semana passada, Luis Vászquez Villamor sentiu o rescaldo. O advogado boliviano saiu de La Paz rumo ao Brasil, mas foi barrado no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra. Lá, ficou de 8 horas até depois das 15 horas, enquanto cinco fiscais de Justiça o interrogavam e reviravam sua bagagem mais de três vezes.

Após quase oito horas de constrangimento, encontraram calças, camisas, cuecas e meias, artigos pessoais, alguns documentos e recortes de jornal e US$ 1.600. Nada de muamba, muito menos a "maleta de dinheiro" que Gabriela Montaña, governista e presidente do Senado, havia denunciado. "Contrabando do quê? De roupas usadas?", questionou Vásquez. Depois, a senadora lhe pediu desculpas.

Ficou sem explicação a abordagem policialesca dada a Vásquez, um ex-senador do Parlamento boliviano. Nem precisava. Representante de Pinto Molina, o conhecido jurista se encontraria com seu cliente no Brasil, onde o ex-líder da oposição nacional pleiteia regularizar seu estado de asilado na Comissão Nacional de Refugiados (Conare).

É tudo o que Evo não quer e sua tropa move montanhas para repatriar o legislador fujão que, de estorvo político, se converteu subitamente em desafeto número um de seu governo, uma franquia menor do projeto bolivariano.

Aliás, para quem ainda se fia na versão do populista andino, de que Pinto Molina é um criminoso comum e não um perseguido político, os malabarismos diplomáticos envolvendo autoridades - bolivianas e brasileiras - têm sido didáticos. Enquanto o advogado Vásquez esbarrou na fiscalização de Evo, o governo boliviano preparava o revide. O resultado foi a "Comissão Executiva", como foi anunciada, que aterrissou em Brasília na sexta-feira, com farta papelada e uma contradição ululante.

Se o governo vizinho pretende comprovar que Pinto Molina é apenas um "delinquente" culpado de "crimes comuns", por que enviar no seu encalço três ministros de Estado e o presidente da Comissão de Justiça da Câmara, além de mambros do Ministério Público? Para um governo que afirma que não detém perseguidos políticos e diz honrar o estado de direito, não seria suficiente mandar um oficial da Justiça em vez de uma legião para falar com seus pares na procuradoria brasileira?

Se Pinto Molina não é um perseguido político, como explicar a coletânea de processos? São mais de 20, a vasta maioria impetrada desde 2011, quando ele começou a denunciar autoridades do alto escalão do governo de Evo por corrupção e tráfico de drogas Os mistérios não cessam aí. Brasília também poderia dar alguns esclarecimentos. A começar pela súbita desistência do senador boliviano de comparecer, na semana passada, à Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, da Câmara dos Deputados. O legislador boliviano se viu coagido após receber uma advertência para que não comparecesse à Câmara, sob pena de ser expulso do País e devolvido para a Bolívia.

"Obviamente, ele foi pressionado pelo governo", disse o deputado Otávio Leite (PSDB -Rio), presidente da Comissão de Segurança. Fernando Tibúrcio Peña, advogado de Pinto Molina, foi mais específico. Na terça-feira, pouco antes do encontro na Câmara, tocou seu telefone. Na linha, estava Eduardo Santos, secretário-geral do Itamaraty, com um recado pouco sutil: se o boliviano falasse ao Congresso, seria expulso do País.

Tibúrcio se disse estarrecido. Mas duvida que a ameaça tenha partido do Planalto. "Foi a presidente Dilma Rousseff que concedeu o asilo", disse à coluna. "É muito mais lógico pensar que o Itamaraty está passando por um traumático processo de depuração e, num momento como esse, podem surgir atitudes atabalhoadas". O Itamaraty não comenta o caso. Já o deputado Otávio Leite promete que o legislador boliviano ainda falará ao Congresso. Por ora, a crise andina deve seguir em brasa.   * É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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