O resgate do soldado Romney

Escolha de Paul Ryan lança luz sobre o debate a respeito da maior ameaça à segurança dos EUA: sua dívida gigantesca

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2012 | 03h01

WASHINGTON - Assim que Mitt Romney e o seu vice recentemente indicado, Paul Ryan, do Estado de Wisconsin, se autointitularam de "America' s Comeback Team" (algo como "a equipe que reaparece para resgatar a América"), o presidente Barack Obama postou uma mensagem no Twitter afirmando: "Romney-Ryan: A equipe que vai embora".

Então vamos lá. Salvar o soldado Romney envolverá uma batalha ideológica sobre o alcance da interferência do governo, a extensão das obrigações dos americanos e a alma do país, que, no mínimo, os EUA merecem. Uma eleição não deve se circunscrever à confiabilidade dos candidatos quando uma grande nação está à beira do declínio. Deve ser um debate amplo, não restrito.

Tenho observado a eleição a partir da Europa, que sabe o que é a dolorosa perda do poder, e tenho percebido muita crítica difusa. Agora, Romney fornece uma centelha, indicando para vice um jovem com credenciais conservadoras que atende ao teste de Ayn Rand (filósofa cujas teorias têm base na objetividade) e com um ar de animal político natural.

Eleições, com frequência, tem base em ideias simples. Ronald Reagan perguntou aos americanos: "Vocês estão melhor hoje do que há quatro anos?" François Hollande derrotou seu rival na França se apresentando aos eleitores como o "Monsieur Normal", que não aprecia os ricos. Romney, ao escolher Ryan, transformou a eleição em um voto sobre uma questão central: quem pode ressuscitar os EUA? O restante do mundo não vem ao caso, porque as credenciais internacionais de Ryan são inexistentes.

A aposta de Romney é enorme, porque a linha do ataque democrata contra ele e Ryan é muito clara: eles são os possíveis desalmados destruidores do Medicare, o programa de seguro saúde dos aposentados - que são muitos no Estado da Flórida - e do Medicaid. Eles são os arquitetos de uma redistribuição de renda em massa, de baixo para cima, em uma época em que o topo, ao contrário da classe média e baixa, está se saindo muito bem.

Cortes de impostos. Romney e Ryan ofereceriam incentivos da Bain (empresa da qual o candidato republicano foi diretor) para os bilionários, mas arrasariam o pacto social do país. A forma como os republicanos contra-atacam é igualmente aparente: Obama não tem nenhum plano sério para acabar com a situação dos americanos vivendo com dinheiro emprestado. A economia está paralisada, o desemprego é alto. O país, citando o apoio dado por Clint Eastwood a Romney, "necessita de um impulso".

Atrás desse campo de batalha há uma montanha. Formada pela dívida. Aplaudo a escolha de Ryan porque isso coloca na frente e no centro a declaração feita pelo presidente do Estado-Maior Conjunto, almirante Michael Mullen, qualificando a dívida dos EUA como a maior ameaça a longo para a segurança do país.

Um país cada vez mais endividado com a China, incapaz de investir em suas escolas, vulnerável aos credores que estão tirando seu apoio, não resistirá ao declínio no século 21. Essa eleição tem a ver com o renascimento americano.

O presidente Obama conseguiu equilibrar o curso dos EUA, matou seu maior inimigo e evitou um colapso financeiro, mas não tirou os EUA do seu estado de desânimo e não exterminou seus hábitos de endividamento.

Ideias. Na retaguarda do agora iminente debate fiscal existe uma outra discussão de valor sobre como galvanizar as energias do país, como todos os grandes presidentes americanos fizeram. O que podemos ler nas entrelinhas da escolha de Romney é isso: sou ousado e posso liderar.

O presidente tem um plano de redução de déficit, incluindo entre outras coisas um corte de gastos militares, a preservação do Medicare e uma assistência médica mais eficiente com economia de gastos. Faz muito sentido. No entanto, tente dar nome para uma grande ideia. Países inquietos precisam de grandes ideias.

Ryan criou sua reputação tendo grandes ideias para equilibrar as contas dos EUA. Ele é um sujeito genial. A genialidade mascara o fato de que, como disse Norman Ornstein, coautor de It's even Worse Than It Looks ("É ainda pior do que parece", livro sobre o mau funcionamento da política americana), "suas propostas são as mais radicais desde Barry Goldwater".

Os pobres, os idosos, os alunos de faculdade em busca de empréstimos - tudo ficará pior com base nas propostas de Ryan, que cortaria as subvenções e transformaria o Medicare num sistema com base em vouchers.

Ele deseja um código tributário muito mais simples: uma alíquota de imposto de 25% para os que têm as rendas mais altas e de 10% para os que ganham menos, acabando com as lacunas e eliminando deduções com base nas quais hoje os ricos pagam muito menos de 25% de imposto.

A simplificação seria boa. As artimanhas fiscais são incontáveis: como observou meu colega James Stewart, "Romney foi criticado por tratar um cavalo que, em parte, é de propriedade de sua mulher, como um investimento passivo que causa prejuízo, não como um hobby". Mas não vou começar a falar do tratamento que ele dá aos animais.

Se as lacunas da lei e as deduções, que permitiram que os americanos mais ricos pagassem zero de imposto em 2009, forem realmente eliminadas, então, como afirma Stewart, a proposta de Ryan tem algum mérito. Claro que existe um enorme "se".

Ameaça. Romney vai tentar disputar a eleição com base em valores: liberdade, oportunidade, iniciativa pessoal, governo menos intervencionistas. Todas propostas de Ryan que deverão ser incorporadas. Obama rebaterá, destacando os cortes nas subvenções que implicarão em grande sofrimento.

Na verdade, podemos ter um sério debate sobre a maior ameaça de longo prazo para a segurança nacional do país. Romney, ao escolher Ryan, pelo menos prestou esse serviço. O mundo está tão entrelaçado que nenhuma nação isoladamente pode ser sua guardiã ou guia. No entanto, os EUA com autoconfiança restaurada são essenciais para o bem-estar global. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA

 

 

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