O resgate pago pela chance de paz entre Israel e palestinos

Acordo de Shalit reforça o lado dos que defendem a guerra

O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h05

A troca de prisioneiros entre inimigos costuma ser um prelúdio para a reconciliação política. Infelizmente, a recente troca de prisioneiros entre Israel e o Hamas, na qual a organização islâmica foi beneficiada com a libertação de mais de mil prisioneiros em troca do soldado israelense Gilad Shalit, não parece ser um bom presságio para as chances de uma paz entre israelenses e palestinos.

Contrariando as aparências, o acordo não é um reflexo do interesse de ambos os lados de dar início a uma reaproximação política capaz de levar ao fim do sítio a Gaza ou a outras medidas de construção de confiança. Esta troca revela, na verdade, o oposto - que ambos os lados estão comprometidos com seu núcleo de valores, dedicando-se à resistência e ao confronto.

Para Israel, recuperar Shalit foi a maneira de sustentar um ethos de união em tempos de guerra e de cumprir a promessa do Exército a seus recrutas (e às famílias deles) de que nenhum soldado, morto ou vivo, jamais seria deixado para trás. A mensagem transmitida foi a de que Israel deve se manter mobilizado e em alerta num ambiente hostil, e a sua sobrevivência depende da coesão do Exército e de seus cidadãos, assim como da solidariedade diante daqueles que são enviados para a batalha.

Debate moral. Controvertido e polêmico, o acordo de Shalit deu início a um debate profundamente moral em uma das sociedades civis mais vibrantes do mundo. O acordo é também, aos olhos dos israelenses, um distintivo de honra para a sua res pública - a reivindicação de sua democracia pericleana de ocupar a posição moral mais elevada numa vizinhança autocrática.

Para o Hamas, por outro lado, a troca de prisioneiros encarnou o valor central da resistência. Tratou-se de enfrentar o inimigo sionista, os cruzados de alta tecnologia cuja superioridade militar só pode ser batida pela resistência obstinada.

O Hamas acredita que o acordo justificou os ensinamentos do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que definiu Israel como nada além de uma "teia de aranha" que pode ser destruída com o sopro de uma espada.

Tanto o Hamas quanto o Hezbollah devem concluir, a partir do colapso emocional israelense diante do destino de um jovem soldado, que sua impotência em lidar com os dilemas psicológicos e sentimentais abre caminho para sua derrota estratégica final.

Enquanto isso, o acordo prejudicou gravemente a liderança de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, que há anos pede a libertação de prisioneiros para reforçar sua popularidade e sua posição enquanto interlocutor de Israel para a paz.

O grande sucesso do Hamas em trazer para casa os heróis da causa palestina foi uma derrota substancial para Abbas - e um significativo golpe contra o processo de paz.

O acordo de Shalit certamente reforçou o lado daqueles que defendem a guerra na Palestina e enfraqueceu aqueles que promoviam a paz.

A triste ironia é que Abbas continua a cooperar com Israel ao limitar as ações do Hamas na Cisjordânia e ainda detém centenas de militantes do Hamas, entre eles alguns que foram presos por planejar a captura de soldados e de civis israelenses.

A primavera árabe empurrou Israel para uma armadilha estratégica da qual o país só poderá sair por meio da acomodação com os palestinos. No clima político atual, os líderes árabes, sejam revolucionários ou conservadores, não podem mais se dar o luxo de serem vistos como cúmplices de Israel e dos Estados Unidos na região.

A causa palestina vai agora ressoar mais alto do que nunca nas principais praças do Cairo, de Omã e de Ancara. Ao libertar Shalit, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, pode ter finalmente se transformado num líder que toma decisões difíceis. Ele precisará desta qualidade para fazer jogadas ousadas também no processo de paz.

É verdade que o Hamas não é um inimigo fácil, mas o grupo não é imune a cálculos políticos racionais. É verdade que seu líder, Khaled Meshaal, declarou recentemente em Teerã: "nosso objetivo é libertar a Palestina do rio até o mar". Mas ele já fez declarações conciliatórias em mais de uma ocasião.

Ninguém exige que Israel assine um acordo de paz com o errático Meshaal. O que o país precisa fazer é fortalecer a posição de Abbas em vez de enfraquecê-la, como ocorreu no caso do acordo de Shalit.

É do interesse de Israel chegar a um acordo com o homem que repudiou constantemente as táticas de conflito armado de seus predecessores. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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