Damon Winter/The New York Times
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O ressentimento dos eleitores de Trump

Hillary vencerá, mas partido perdeu um eleitorado até há pouco tempo cativo: brancos, de classe média baixa, sem nível superior, que não integram nenhuma minoria

Hélio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 05h00

Hillary Clinton ganhará a eleição, ao que tudo indica. Mas seu partido perdeu um eleitorado até há pouco tempo cativo: brancos, de classe média baixa, sem nível superior, que não integram nenhuma minoria. A sensação de que Washington é comandada por uma elite incapaz de entender as angústias dessa gente não desaparecerá com a derrota de Donald Trump. “Vejo integrantes dessa elite com um desdém primal”, diz J.D.Vance no recém-lançado Hillbilly Elegy (Elegia caipira). Ele saiu de Ohio, estudou em Yale e se tornou um capitalista de risco de sucesso, mas até hoje se identifica com a população do interior que vota em Trump. Outro livro que decifra a mentalidade desse eleitor é Strangers in their own land (Estranhos na própria terra), da socióloga Arlie Hochschild. Na Califórnia, ela não conhecia nenhum republicano. Para entender o Tea Party, mudou-se há cinco anos para um rincão conservador da Louisiana, região poluída, cujos habitantes, refratários a leis ambientais, desconfiados do governo, aderiram em peso a Trump. Eis como explicou ao Vox o ressentimento deles: “Imagine uma fila subindo uma colina. Lá no alto, o sonho americano. Todos sentem que trabalharam duro, com sacrifício, esperam algo que merecem. E a fila não anda, ou anda devagar – e muitos furam fila: imigrantes, negros, mulheres, refugiados, funcionários públicos, até mesmo um pelicano encharcado de petróleo. Para eles, é injusto”.

As palavras preferidas de Trump e Hillary

Palavras mais citadas por Trump, segundo análise da empresa de inteligência artificial Luminoso: “desastre” (5% das declarações), “fronteiras” (3%), “Irã” (3%), “Nafta” (2%). As mais citadas por Hillary: “empregos” (9%), “americanos” (8%), “famílias” (7%), “economia” (6%), “fato” (6%).

A tramoia que derrubou Boris johnson 

Na sucessão de David Cameron, derrotado no plebiscito do “Brexit”, um aliado do ex-ministro Michael Gove, infiltrado na equipe do ex-prefeito Boris Johnson, sequestrou o celular de Johnson sob o pretexto de mantê-lo concentrado no discurso que preparava, narra o novo livro de Tim Shipman, editor de política do Sunday Times. A manobra contribuiu para melar um acordo selado entre Johnson e a rival Andrea Leadsom para formar chapa única. Ela esperava a confirmação por mensagem de texto e tuíte que jamais saíram do aparelho. Resultado: Gove saiu candidato, Boris desistiu – e Theresa May, que nem apoiava o “Brexit”, é hoje primeira-ministra.

Por que a pequena Valônia resistiu

Eis o que diz o economista Dani Rodrik sobre a resistência dos valões, na Bélgica, em aceitar o acordo de livre-comércio entre Canadá e União Europeia: “Em vez de reclamar da estupidez e da ignorância de quem rejeita tratados comerciais, deveríamos tentar entender por que eles perderam legitimidade. Poria boa parcela da culpa na elite e nos tecnocratas que desdenharam as preocupações de cidadãos comuns em acordos anteriores”. 

Olho no general venezuelano

Atenção para o general Vladimir Padrino López, ministro da Defesa da Venezuela. Quando Hugo Chávez o escolheu para comandar as Forças Armadas, em 2012, queria equilibrar a disputa por seu legado. Em julho, com o agravamento da crise, o presidente Nicolás Maduro determinou que seu gabinete se reportasse não a ele, mas a Padrino. Interpretação possível: Padrino já aplicou o golpe, só aguarda o desfecho da crise para ocupar a cadeira.

Piratas navegam do Panamá à Islândia

A renúncia do premiê islandês – incapaz de explicar suas contas secretas no escândalo Panama Papers – abriu caminho ao Partido Pirata, cuja plataforma de tons libertários defende hackers, WikiLeaks, Snowden e a transparência absoluta. O Pirata deve emergir das eleições de ontem como uma das maiores forças políticas – ou até mesmo a maior força política – do país, segundo as pesquisas. “Temos de mudar o sistema”, diz a poeta Birgitta Jónsdóttir, parlamentar símbolo do partido.

Direito a conhecer

“O acesso a uma biblioteca nacional digital não deveria ser tratado como bem público, comparável à água potável ou à eletricidade? Por que não fazer um sistema de banda larga como o que Eisenhower criou para autoestradas? A lei se concentra no direito do autor, que deve ser respeitado e protegido, claro, mas que dizer do direito dos leitores?”

Robert Darnton,

HISTORIADOR DO LIVRO, AO DEFENDER UM PROGRAMA DE DIGITALIZAÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS NA ‘NEW YORK REVIEW OF BOOKS’

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