O retorno da guerra ideológica

A ideologia volta a ser uma questão importante. A grande evolução ocorrida nos últimos tempos é a ascensão não apenas de grandes potências, como também das grandes potências autocráticas da Rússia e da China. A perspectiva verdadeiramente realista do cenário internacional começa com o entendimento de que essa mudança imprevista transformará nosso mundo.Muitos estão convencidos de que quando os líderes chineses e russos pararem de acreditar no comunismo, deixarão de acreditar em tudo. Eles se tornaram pragmáticos e perseguem seus próprios interesses e os de sua nação. Mas os governantes chineses e russos, assim como os governantes das autocracias de outros tempos, têm convicções que pautam sua política interna e externa. Eles acreditam nas virtudes de um governo central forte e menosprezam as debilidades do sistema democrático.Acreditam que um governo forte é imprescindível para que suas nações sejam respeitadas mundo afora. Os líderes chineses e russos não são apenas autocratas. Eles acreditam na autocracia.E por que não deveriam? Na Rússia e na China, a multiplicação da riqueza e a autocracia nacional mostraram-se compatíveis, contrariamente às previsões do Ocidente liberal. Moscou e Pequim descobriram que é possível permitir uma atividades econômica aberta, suprimindo ao mesmo tempo a atividade política. Quem ganha dinheiro não meterá o nariz na política, principalmente quando sabe que, se o fizer, perderá o nariz.A riqueza recém-adquirida confere às autocracias uma maior capacidade de controlar a informação - por exemplo, monopolizando as estações de televisão e controlando a internet - freqüentemente, com ajuda de multinacionais estrangeiras de olho em novos negócios.Em longo prazo, a prosperidade crescente poderá levar ao liberalismo político, mas até onde vai o longo prazo? Talvez longe demais para ter relevância estratégica ou geopolítica.Enquanto isso, o poder e a capacidade dessas autocracias de se perpetuarem moldarão o sistema internacional. O mundo não está pronto para envolver-se numa nova luta ideológica como a da Guerra Fria. Mas a nova era, longe de ser uma época de valores comuns e interesses compartilhados, se caracterizará por crescentes tensões e, às vezes, por confrontos entre as forças da democracia e as da autocracia.Se as autocracias têm suas próprias crenças, também têm seus próprios interesses. Os governos da China e da Rússia são pragmáticos principalmente quando se trata de proteger a continuidade do seu governo. O interesse na autopreservação determina a sua abordagem da política externa.A Rússia é um bom exemplo de como o modo de governar uma nação afeta suas relações com o mundo. A Rússia em processo de democratização e a própria União Soviética de Mikhail Gorbachev, igualmente em processo de democratização, tinham uma visão bastante benevolente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e tendiam a manter boas relações com os vizinhos que seguiam pelo mesmo caminho rumo à democracia. Mas Vladimir Putin considera a Otan uma entidade hostil, qualifica sua ampliação de "uma grave provocação" e indaga "contra quem se destina a sua expansão?" Entretanto, hoje, a Otan tem uma atitude menos provocadora e ameaçadora em relação a Moscou do que na época de Gorbachev.Então, o que é que Putin teme em relação à Otan? Não é o poderio militar. É a democracia.O mundo pós-Guerra Fria parece diferente do ponto de vista de centros de poder autocráticos como Pequim e Moscou, em comparação a centros democráticos como Washington, Londres, Paris, Berlim ou Bruxelas. As "revoluções coloridas" da Georgia e da Ucrânia no ano passado, tão comemoradas no Ocidente, preocuparam Putin na época, porque atrapalharam suas ambições regionais, e porque ele temia que seu exemplo pudesse ser seguido na Rússia. Até hoje ele alerta contra os "chacais" na Rússia, que "fizeram curso intensivo com especialistas estrangeiros, treinaram em países vizinhos e agora atuarão aqui".Estrategistas políticos americanos e europeus afirmam querer que Rússia e China integrem a ordem liberal internacional, mas não surpreende que os dois países se mostrem cautelosos. Será que os autocratas ingressarão na ordem liberal internacional sem sucumbir às forças do liberalismo? Temerosas da resposta, as autocracias estão compreensivelmente se reapresentando, com certas conseqüências. A autocracia está voltando. O fascismo estava na moda na América Latina nas décadas de 30 e 40, em parte porque parecia ter sido bem-sucedido na Itália, na Alemanha e na Espanha. O crescente poder das democracias nos últimos anos da Guerra Fria, culminando com o colapso do comunismo depois de 1989, contribuiu para a onda global de democratização. A ascensão de duas poderosas autocracias poderá modificar mais uma vez o equilíbrio.O chanceler russo, Serguei Lavrov, aplaude a volta dessa competição ideológica. "Pela primeira vez em muitos anos surgiu um verdadeiro ambiente competitivo no mercado das idéias entre diferentes sistemas de valor e modelos de desenvolvimento", comemorou. E a boa notícia, do ponto de vista do Kremlin, é que "o Ocidente está perdendo o monopólio sobre o processo de globalização". Tudo isto é uma surpresa desagradável para um mundo democrático que acreditava que esta competição havia terminado com a queda do Muro de Berlim. Está na hora de despertar do sonho.*Robert Kagan, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace, é colunista do ?Washington Post?

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