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O revés de Merkel na Europa

A violência do golpe que a chanceler acaba de receber vai obrigá-la a manter-se discreta durante algum tempo

Guilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 05h00

O revés sofrido pela chanceler Angela Merkel nas eleições regionais de Mecklembourgo-Pomerânia Ocidental já estava programado. O partido de Merkel, CDU (União Democrata Cristã), habituado a vencer sempre e em toda a parte, ficou em terceiro lugar. O outro partido da coalizão de governo, o poderoso SPD (socialista) foi o vitorioso, mas o assombro foi o surgimento em segundo lugar de um partido jovem e quase desconhecido, o AfD, que deve sua repentina ascensão ao ódio que tem dos imigrantes.

Angela Merkel paga por sua generosidade. Seu pecado: ter aberto as fronteiras da Alemanha aos sírios que fogem do seu país em guerra. Mas a chanceler não é a única vítima desse resultado. A Europa também.

A comunidade europeia está fragilizada. As crises se sucedem: letargia econômica, o desvio dos países do leste (Polônia, Hungria e outros) na direção de regimes autoritários, o avanço do nacionalismo e dos egoísmos, crise agrícola. Enfim, o Brexit, ou seja, a saída de um dos países mais poderosos do continente, a Grã-Bretanha.

Para conduzir, em meio a todos estes problemas, a pesada tripulação europeia, é necessário um capitão corajoso. Até agora, a chanceler alemã assumiu esse papel. Mas a violência do golpe que acaba de receber vai obrigá-la a manter-se discreta durante algum tempo. Totalmente absorvida, para não dizer “contaminada”, pelas suas dificuldades internas, ela não poderá seguir no comando do navio europeu.

O problema é que ninguém na Europa tem competência para assumir o comando. Em teoria, o presidente francês poderia ser um substituto. Mas François Hollande está numa tal situação que as pessoas, às vezes, nem se dão conta do que ele fala. Mesmo na França, não é levado em consideração.

O italiano Matteo Renzi adoraria assumir um papel na Europa. Mas deverá encarar um referendo que pode derrubá-lo. Então, sem um capitão, a Europa está condenada a seguir cambaleando.

Além disso, temos a Grã-Bretanha, que por referendo, decidiu se afastar da Europa. Se os ingleses votaram contra a Europa, o motivo em grande parte foi que não suportam a indulgência europeia em relação aos imigrantes. Podemos dizer, assim, que o revés sofrido por Angela Merkel nas eleições em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é reprodução do mesmo eco do Brexit britânico.

E o Brexit teve uma outra consequência. Derrubou um tabu. Até agora, muitos europeus ridicularizavam Bruxelas, sua burocracia lunar, seu desperdício, sua covardia e incoerências, mas raros eram os que ousavam ir mais além.

Ora, a Grã-Bretanha ousou “traduzir em atos” o que outros países se contentam em expressar em “palavras”. E, ao mesmo tempo, tornou vãs as profecias apocalípticas proferidas pelo “establishment pró-europeu”.

Economistas, políticos, intelectuais, banqueiros, muitos previam que, se a Grã-Bretanha saísse da Europa, naufragaria. O país se tornaria uma Grécia fria e também pobre. 

Ora, depois de algumas semanas de Brexit, constata-se que a Grã-Bretanha continua existindo. Permanece um país situado ao norte da França, com vacas, fábricas, macieiras, muitos bancos. A BBC continua transmitindo seus programas como se nada tivesse ocorrido. A Grã-Bretanha não sofre de leucemia, nem febre intermitente, tampouco um resfriado. É o golpe mais pérfido dado por ela. Aparentemente, continua a existir, simplesmente para aborrecer os europeus.

Contudo, se é incontestável o fato de Londres ter preferido o Brexit, é preciso reconhecer que a nova primeira-ministra, Theresa May, não parece ter pressa de implementar a decisão. Ela hesita em iniciar os procedimentos que desligarão definitivamente a Grã-Bretanha da União Europeia. E recusa-se mesmo a dizer em que data o fará. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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