ARLAN NAEG/AFP
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O risco de copiar vulcões contra o calor global

Cientistas avaliam perigo de usar poluição para tapar o sol e esfriar Terra; nacionalismo é um deles

Joel Achenbach / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2018 | 05h00

Cientistas estão discutindo o uso da chamada “solução vulcânica” contra o aquecimento global. Seria uma última e desesperada medida para se enfrentar o fenômeno – e possivelmente uma péssima deia. A única explicação para a solução vulcânica estar sendo objeto de pesquisas é a admissão de que a humanidade fracassou em impedir que as mudanças climáticas chegassem ao nível de perigo a que chegaram. 

Em 1991, o vulcão Pinatubo entrou espetacularmente em erupção. Cinzas e lava mataram centenas de pessoas na região de Luzón, centro das Filipinas. Cinzas aquecidas e gás lançados na atmosfera espalharam-se pelo globo, refletindo a luz solar e esfriando o planeta por mais de um ano. Engenheiros dizem que o mesmo princípio poderia ser usado para contra-atacar o aquecimento global. 

Seria uma decisão difícil. Cientistas não sabem o bastante sobre as possíveis consequências. Também não se sabe quem terá a autoridade e a responsabilidade. O planeta vive uma explosão de nacionalismo e um esgarçamento de parcerias. O presidente Donald Trump vem repetidamente defendendo uma agenda isolacionista, além de considerar o aquecimento global uma farsa. 

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Ninguém ainda conseguiu fazer um vulcão entrar em erupção, mas com a tecnologia já se pode imitar mais ou menos o efeito de uma. A ideia básica é usar aviões, drones ou outros meios para pulverizar na estratosfera aerossóis que reflitam a luz solar e mudem o albedo – o coeficiente de reflexão do planeta. 

Uma das hipotéticas razões para se fazer algo tão audacioso é que poderia beneficiar a agricultura, impedindo os efeitos do excesso de calor. Mas um estudo publicado na revista científica Nature nesta semana chegou a uma conclusão diferente. Usando dados históricos de duas erupções vulcânicas, os pesquisadores concluíram que adulterar a atmosfera não teria nenhum grande efeito prático sobre as safras.

David Keith, professor de física aplicada em Harvard, que não participou do trabalho, disse que a pesquisa não deve ser interpretada como evidência de que a geoengenharia solar seja uma má ideia. “Reduzir danos nas safras é apenas uma das razões pelas quais a geoengenharia faz sentido como ferramenta para limitar os riscos climáticos”, disse Keith. 

Há uma diferença entre geoengenharia solar e erupções vulcânicas, prosseguiu Keith. “Diferentemente das erupções, a geoengenharia solar não se limitaria a um lançamento único de material, num espaço definido, mas várias operações.”

 

A modificação do albedo não pode ser feita num lance único. A humanidade continua a lançar gases do efeito estufa na atmosfera, e em quantidades cada vez maiores. Pelo Acordo de Paris, de 2015, os quase 200 países signatários se comprometeram a reduzir suas emissões, mas o cumprimento da promessa vem sendo questionável e Trump já disse que vai excluir os EUA do acordo.

Além disso, se e quando aerossóis forem espalhados na atmosfera, eles não permanecerão no lugar. Vão migrar para latitudes polares e se consolidar em gotículas, voltando à Terra. Para não interromper o projeto, as futuras gerações terão de renovar constantemente o suprimento de aerossóis bloqueadores da luz solar; caso contrário a temperatura do planeta pode subir da noite para o dia. “Uma interrupção súbita equivalerá a sermos atingidos por uma forte onda de calor sem que tenhamos feito as adaptações necessárias”, disse Raymond Pierrhumbert, físico especializado em clima da Universidade de Oxford.

Há três anos, o Conselho Nacional de Pesquisas das Academias Nacionais de Ciências divulgou um estudo dizendo que modificações no albedo são arriscadas demais para serem tentadas no momento. Segundo eles, os esforços para reduzir as mudanças climáticas têm sido escassos, e passou o tempo de nos conscientizarmos das opções que temos para viver em um mundo em aquecimento. 

Uma outra forma de geoengenharia seria remover diretamente carbono da atmosfera, o que incluiria capturar o carbono que sai das chaminés e confiná-lo no subsolo. A tecnologia para isso é precária e limitada pelo custo, concluiu o Conselho Nacional de Pesquisa. 

Já a intervenção no albedo é, em teoria, relativamente barata. Ela poderia ser feita com aviões voando a cerca de 20 quilômetros de altura. O combustível dos aviões poderia ser modificado para queimar uma alta porcentagem de enxofre, embora os aviões tivessem fornos para queimar enxofre e lançá-lo no ar, disse Pierrehumbert. 

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A intervenção exigiria a aceitação pelo público da ideia de usar a poluição do ar para combater o aquecimento global. “É coisa de lunático achar que isso seja algo que valha a pena ter em nosso portfólio contra o aquecimento global”, diz Pierrehumbert. 

Uma ideia melhor, segundo Alan Robock, cientista especializado em clima da Universidade Rutgers, é parar de usar a atmosfera como esgoto de dióxido de carbono. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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