O risco de dirigir um carro japonês em uma China nacionalista

Li Jianli foi agredido por multidão de compatriotas

SÃO JORNALISTAS, AMY QIN, EDWARD WONG, THE NEW YORK TIMES, SÃO JORNALISTAS, AMY QIN, EDWARD WONG, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h04

N o coração de uma das famosas capitais dinásticas da China, hoje uma moderna metrópole de 8 milhões de habitantes, Li Jianli jaz parcialmente paralisado num leito de hospital com seu crânio esmagado e sua capacidade de falar reduzida a algumas frases simples - "sim", "obrigado". Só recentemente Li começou a recuperar sua capacidade de se mover e falar. A recuperação tem sido lenta, dolorosa e precária, segundo seus parentes.

Ademais, há o trauma emocional. Quando pediram a Li numa tarde recente para falar sobre os acontecimentos que levaram à sua hospitalização, sua mulher rapidamente interferiu para mudar de assunto. "Mesmo agora, quando fala extensamente sobre os acontecimentos daquele dia, ele fica perturbado e começa a chorar", disse no corredor ela, que pediu para ser identificada apenas como sra. Wang.

Li, de 51 anos, foi alvo do episódio mais feio conhecido entre os protestos antijaponeses que convulsionaram cidades na China no mês passado depois que uma antiga disputa sobre um arquipélago provocou manifestações furiosas. A única ofensa de Li, aparentemente, foi estar guiando um carro japonês. Ele acabou sendo vítima de uma multidão que parou o carro numa larga avenida de Xian.

Agora, apesar de o sentimento antijaponês permanecer forte, Li se tornou um símbolo para muitos chineses do que pode dar errado quando o nacionalismo latente fica fora de controle.

"Esses protestos poderiam ser um ponto de virada importante na política democrática da China", disse Bai Yansong, um conhecido comentarista na televisão estatal, em seu programa, chamado 1+1. "O fato de se ter uma causa justa não significa que o processo não possa ser ilegal." E acrescentou: "Eles estão usando a roupagem externa do patriotismo, mas na verdade estão cometendo um crime."

A violência cometida contra Li por um manifestante que bateu em sua cabeça foi vividamente registrada por um espectador num vídeo que se tornou um fenômeno na internet. A polícia de Xian, capital da Província de Shaanxi, começou uma caçada ao agressor e pediu ajuda a pessoas de todo o país. Na semana passada, anunciou que um homem havia sido detido. A agência de notícias estatal Xinhua, disse que o suspeito poderia receber pena de morte se condenado.

Com a persistência do clima tenso em relação ao conflito territorial entre Japão e China sobre as Ilhas Diaoyu - chamadas de Senkaku pelo Japão - um novo embate diplomático poderá provocar novos protestos e tumultos. Durante os protestos do mês passado, o artista dissidente Ai Weiwei filmou um vídeo de manifestantes do lado de fora da embaixada americana em Pequim atacando um sedã que conduzia o embaixador Gary Locke. Muitos chineses atribuíram a uma conspiração americana a recente compra das ilhas pelo governo japonês.

Num sinal de persistência das hostilidades, fabricantes automotivos japoneses anunciaram na terça-feira que as vendas de veículos de marca japonesa na China haviam caído significativamente no mês passado.

Em Xian, um slogan num outdoor ao lado da via expressa para o aeroporto diz: "As Ilhas Diaoyu pertencem à China". Hoje quase não há sinais dos protestos no centro de Xian. Testemunhas disseram que demorou dias para trabalhadores urbanos limparem uma poça do sangue de Li, mas as ruas voltaram ao normal. Prestando atenção nos carros, porém, pode-se ver que há um grande número de bandeirinhas da China fixados neles, em particular nos de marcas japonesas.

Muitos chineses liberais e estrangeiros têm perguntado se o governo central não teria instigado os protestos, ou ao menos permitido que eles se prologassem demais. Nos protestos em Xian a polícia estava presente, mas os policiais não tentaram impedir os manifestantes de virarem viaturas policiais de fabricação japonesa, segundo várias testemunhas. O ataque a Li ocorreu a 150 metros de um posto policial.

Li seguia de carro para casa com sua mulher em 15 de setembro num Toyota Corolla branco depois de eles terem passado a manhã procurando materiais de construção para o novo apartamento de seu filho, disse Wang. Não longe do portão oeste do muro da cidade velha, eles deram com uma multidão de manifestantes agitando bandeiras chinesas, entoando slogans e destruindo carros.

Os manifestantes cercaram rapidamente o carro e usaram porretes, tijolos e travas de bicicleta para bater no veículo com o casal dentro.

Os dois saíram do carro para pedir para o grupo parasse. Os detalhes do que houve em seguida são confusos, mas o vídeo na internet mostra um homem corpulento saltando contra Li e desferindo quatro golpes nas costas de sua cabeça com uma trava de bicicleta. No vídeo, o som agudo do metal se chocando com o crânio pode ser ouvido por cima do ruído da multidão. Sentada no chão, Wang gritava por ajuda tentando estancar o sangue que escorria do ferimento do marido.

Enquanto manifestantes continuavam a destruir o carro, um espectador gritou: "Não podemos primeiro salvar esse cara? Somos todos chineses. Vocês o estão tomando por um japonês?" Com a ajuda de alguns transeuntes, Wang arrastou o marido para o outro lado da rua e fez sinal para um táxi. Num hospital, Li foi submetido a uma cirurgia cerebral.

"Foi um completo caos. Meu coração palpitava", disse Wang. "Como ele puderam ser tão desalmados?" Ela perguntou: "Ficamos sabendo que no momento a polícia não ousou intervir. Se tivesse interferido, a situação teria ficado ainda mais caótica". Na semana passada, Li conseguiu dar alguns passos pela primeira vez desde que foi hospitalizado. Ele deve sofrer uma nova cirurgia em seis meses. Alguns médicos dizem que ele poderá não se recuperar completamente. Wang disse que Li era o principal provedor da família.

"Esse é o tipo de coisa que vemos na televisão", disse ela. "Nunca pensamos que poderia ocorrer conosco." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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