O risco de um vigilante virar um justiceiro

Cenário: Campbell Robertson e

O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h06

John Schwartz / NYT

Em agosto, Wendy Dorival recebeu um apelo para a criação de um grupo de monitoramento num bairro de Sanford, na Flórida. Como coordenadora voluntária do Departamento de Polícia, ela recebe com frequência esse tipo de solicitação e a prefeitura já tinha ao menos dez grupos parecidos. Então, não se preocupou com o pedido de George Zimmerman.

Wendy marcou uma visita ao Retreat of Twin Lakes, condomínio que vinha sendo alvo de roubos. Compareceram 25 moradores, um número apreciável. "Sempre explico quais são as normas e as responsabilidades", ela disse. O papel do voluntário, segundo ela, é "ser os olhos e os ouvidos" da polícia, "e não o justiceiro". Membros de um grupo de vigilância de bairro "não devem entrar em confronto com quem quer que seja", acrescentou. "Usar uma arma na vigilância do bairro está fora de questão", ela advertiu.

Zimmerman estava lá e foi escolhido pelo grupo como coordenador. Em 26 de fevereiro, ele perseguiu e atirou em Trayvon Martin, um estudante negro de 17 anos, desarmado, que tinha nas mãos uma latinha de chá gelado e um pacotinho de lanche, matando-o.

Na quinta-feira, realizou-se em Sanford um protesto. Pessoas vindas de vários Estados vestiam camisetas com a frase "Eu sou Trayvon Martin" e carregavam cartazes coma foto dele. Outras seguravam painéis com a foto de Zimmerman e dizeres pedindo sua prisão. Muita gente segurava garrafinhas de Arizona Iced Tea e usava no pescoço colares improvisados com caixas do lanchinho Skittles.

Para a Wendy, a polêmica prejudica os programas de vigilância de bairro que, na sua opinião, fortalecem a comunidade e ajudam a reduzir a criminalidade. O movimento de vigilância dos bairros foi criado há cerca de 40 anos pela Associação Nacional de Delegados. Chris Tutko, o diretor do programa da associação, diz que há 25 mil grupos registrados nos EUA e muitos outros não registrados, como o de Sanford. "Esta é uma organização que tem o bom senso como base", disse Tutko. "Se você carrega uma arma, muito provavelmente se tornará uma vítima, ou pior."

Especialistas em justiça criminal, entretanto, afirmam que existe sempre o risco de surgir um Harry Callahan, o "Dirty Harry" de Clint Eastwood. E a quantidade de leis que permitem fácil acesso a armas de fogo legais pode acabar colocando armas nas mãos erradas, disse James Alan Fox, professor de criminologia na Northeastern University de Boston. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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