O risco de uma guerra comercial

Trump ameaça impor tarifas punitivas de 45% sobre os produtos chineses; efeitos reverberariam por toda a Ásia

The Economist, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2016 | 06h00

Há várias décadas, a estratégia dos Estados Unidos na região da Ásia se apoia em três pilares: livre-comércio e a prosperidade dele resultante; alianças sólidas, formais ou informais, estabelecidas com nações que vão do Japão a Austrália e Cingapura; e promoção de valores democráticos. Não se sabe se alguma dessas coisas tem importância para Donald Trump, o presidente que os americanos elegeram. A vitória do republicano é um golpe de grandes proporções para a influência e o prestígio dos EUA na Ásia.

Começando pelo comércio. O governo Obama passou os últimos anos enaltecendo a Parceria TransPacífica (TPP), apresentando-a como verdadeira referência para os acordos comerciais do futuro. Ninguém imaginava que seria fácil convencer os americanos de seus benefícios, mas os proponentes do tratado nutriam alguma esperança de vê-lo aprovado por um Congresso em fim de mandato. Agora, isso parece improvável. Os parlamentares são sensíveis ao estado de ânimo do país, e, seja qual for o sentido exato do recado que os eleitores americanos quiseram dar com a eleição de Trump, uma coisa é certa: de acordo comercial com a Ásia eles não querem nem ouvir falar.

De fato, Trump ameaça promover uma guerra comercial contra a China, país que é o maior parceiro comercial dos EUA, impondo tarifas punitivas de 45% sobre os produtos chineses. Tudo indica que os maiores prejudicados disso seriam os próprios americanos, mas os efeitos reverberariam em cadeias produtivas pela Ásia afora, destruindo empregos e abalando a confiança.

Único economista a integrar a equipe de assessores econômicos de Trump (os demais são empresários), Peter Navarro sustenta que a China é a grande culpada pela desindustrialização dos EUA. Em sua opinião, o principal problema da economia mundial são os desequilíbrios comerciais, que seriam causados sobretudo por manipulações cambiais. A China, diz ele, “é o maior exemplo disso”. Ainda que o ponto de vista seja considerado estapafúrdio pela maioria dos economistas, é possível que Navarro exerça influência considerável na equipe de transição.

Denúncia. Trump diz que retirará os EUA do tratado climático de Paris e cancelará o acordo climático que Barack Obama firmou com a China – uma das poucas coisas boas que aconteceram nas relações sino-americanas nos últimos tempos. Também promete denunciar a China por manipulação cambial, mesmo que a única consequência disso seja obrigar os EUA a convocar os chineses para discutir a relação cambial entre o dólar e o yuan, sem qualquer efeito prático. O republicano ameaça, ainda, mover ações contra a China na Organização Mundial do Comércio (OMC) e na própria Justiça americana, além de “lançar mão de todos os recursos ao alcance do Poder Executivo para resolver disputas comerciais, caso a China não abandone suas práticas ilegais”. A legislação dos EUA permite que o presidente imponha tarifas de importação unilateralmente, mas só até o limite de 15% e por períodos de, no máximo, 150 dias.

O lugar de destaque que Barack Obama prometia conceder à Ásia na política externa americana, aumentando a atenção que os EUA dão ao maior continente do mundo, onde atualmente se concentram também as maiores taxas de crescimento econômico, está em risco. As prioridades dos EUA agora deveriam ser: tranquilizar os aliados asiáticos, reafirmando seus compromissos com eles; manter aberto o canal de negociações com a China, tanto em questões globais, como as mudanças climáticas, quanto em temas bilaterais; organizar coalizões de países com visões e preocupações semelhantes para se contrapor à agressividade dos chineses; e aumentar a pressão contra a potência asiática, caso Pequim não se disponha a coibir por conta própria a impetuosidade delinquente dos norte-coreanos. Hillary Clinton entendia esses desafios. Imaginando que seria eleita, já vinha montando uma equipe de especialistas competentes para formular uma política para o continente asiático.

Assessoria. Trump, por sua vez, não dá mostras de que percebe o que está em jogo. E o pior é que não se sabe com quem poderá contar para assessorá-lo: o magnata foi repudiado por praticamente todos os especialistas em Ásia do Partido Republicano. Sua eleição será motivo de nervosismo para o Japão, aliado mais fiel que os EUA têm no continente. Durante a campanha, Trump acusou os japoneses de pegar carona nos investimentos de defesa que os EUA fazem na região, insinuando que tanto o Japão quanto a Coreia do Sul deveriam desenvolver as próprias armas nucleares, em vez de buscar proteção sob o guarda-chuva americano – sugestão feita sob medida para provocar instabilidades regionais. Ainda que nenhum dos dois países cogite seguir a recomendação, aumentará seu receio de que os EUA acabem por se retirar militarmente da Ásia. A rejeição de Trump a uma ordem com base em normas, respaldada pelos EUA, pode estimular a China a adotar comportamento ainda mais agressivo – em particular, no Mar do Sul da China, caso os americanos desistam das patrulhas que realizam em nome da liberdade de navegação.

Os chineses de inclinações mais belicosas identificam aí uma oportunidade geopolítica. Na visão que o Partido Comunista chinês tem do cenário internacional subjaz a crença de que a China é uma potência em ascensão, ao passo que os EUA estariam em decadência. A eleição de Trump já é vista como causa e consequência da fragilidade americana. “Quem provavelmente terá de arcar com as consequências disso serão os EUA e o Ocidente, não a China”, afirma artigo publicado pelo Global Times, jornal que tem laços com os militares chineses. “Para nós, não faz diferença que o sujeito ocupe a Casa Branca. Vamos ficar assistindo de longe, só vendo a bagunça que ele vai aprontar.” / Tradução: Alexandre Hubner

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