AFP PHOTO / Douma City Coordination Committee / HO
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‘O risco de uma guerra mais ampla é grande’, diz especialista americano

Bruce Jentleson, especialista em Relações Internacionais da Universidade Duke e integrante do time de política externa do governo Obama, diz que provável ataque militar dos EUA contra a Síria poderá agravar a crise

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 22h02

Washington - O provável ataque militar dos EUA contra a Síria poderá agravar a situação no país e trazer o risco de uma guerra mais ampla na região, avalia Bruce Jentleson, especialista em Relações Internacionais da Universidade Duke e integrante do time de política externa do governo Barack Obama de 2009 a 2011.

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Depois de deixar a administração, Jentleson atuou em negociações de bastidores não-oficiais com a Rússia na busca de uma saída diplomática para o conflito que já dura sete anos. Apesar de ter sido defensor de uma ação mais incisiva dos EUA na gestão Obama, ele é cético em relação aos resultados de uma ação militar agora. 

“A situação na Síria é ainda mais explosiva do que era. Há crescentes choques com os israelenses, a Turquia está mais envolvida do que antes e o risco de isso se tornar uma guerra mais ampla é grande”, afirmou. A seguir, trechos da entrevista: 

Quais os riscos de uma ação militar dos EUA contra a Síria?

Eu servi a administração Obama de 2009 a 2011 e minha visão é que a política dos EUA deveria ter sido mais incisiva em momentos cruciais. Mas você não apenas ataca. É precisa ter uma estratégia, com uso da força combinado com diplomacia. Eu tenho confiança zero de que o presidente e seu novo conselheiro de Segurança Nacional (John Bolton) sejam capazes de fazer qualquer coisa além de atacar. E isso me preocupa. 

A situação na Síria é ainda mais explosiva do que era. Há crescentes choques com os israelenses, a Turquia está mais envolvida do que antes e o risco de isso se tornar uma guerra mais ampla é grande. 

Eu sinto a indignação com o contínuo uso de armas químicas por Bashar Assad e adoraria que o mundo se unisse e fizesse algo em relação a isso, mas o Conselho de Segurança da ONU está bloqueado pelos russos. Se Trump atacar, eles atacam de volta e há uma escalada. É dolorido para mim dizer isso, depois de defender que deveríamos ter sido mais agressivos no passado, mas agora eu acredito que os riscos são maiores.

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Quando Trump retaliou contra outro ataque químico, há um ano, não houve resposta.

Não creio que Assad acreditasse que precisava responder. O que me preocupa é uma escalada que não seja intencional. Aquele ataque foi como jogar damas enquanto o outro lado jogava xadrez. Nada mudou. O objetivo foi demonstrar determinação e impor custos que levariam os sírios e os russos a mudarem sua atuação. Isso não aconteceu. Eles atingiram seus objetivos sem retaliar. 

O último ataque despertou a atenção, mas por meses nós temos relatos de aumento das atrocidades por parte dos sírios. Ainda que não retalie, Assad pode esperar uma ou duas semanas até que a atenção de Trump seja capturada por outra coisa e continua a agir da mesma maneira. 

O que Trump fará depois do ataque? Não creio que ele e Bolton possam apresentar uma estratégia para de-escalar o conflito em vez de agravá-lo.

Se o principal objetivo de Trump era derrotar o Estado Islâmico, atacar Assad não vai na mão contrária, já que ele está ganhando a guerra?

Não se pode separar os dois. Não haveria um Estado Islâmico da mesma magnitude se a Síria não tivesse se tornado uma zona de conflito. Mesmo com a recuperação do território, muitos dos seguidores do Estado Islâmico estão espalhados. E há várias outras facções islâmicas violentas. Não se pode resolver isso sem levar a Síria a um maior grau de estabilidade interna.

A única maneira de avançar seria lançar ataques retaliatórios e, ao mesmo tempo, tentar trabalhar com os russos de novo em uma saída diplomática. 

Qual a motivação da Rússia para negociar se ela está ganhando a guerra?

Não acho que esteja ganhando. Eles tinham dois objetivos em 2015, quando entraram no conflito. Um era demonstrar que os Estados Unidos não poderiam determinar o destino de outro país do Oriente Médio sem eles. O outro era assegurar que Assad não seria substituído sem eles influenciarem quem seria seu sucessor. 

Se Assad conseguir retomar a Síria nos próximos três meses, os russos estarão de volta a um outro Afeganistão. Eles terão de manter esse cara no poder, porque continuará a existir oposição, guerrilhas, ataques, o que pode levar a baixas russas. Outro fator é a retaliação terrorista. Houve o assassinato do embaixador russo na Turquia, em 2016. No último ano ocorreu o ataque contra o metrô de San Petersburgo. Vencer não é realmente vencer para eles. Eles ganharam no Afeganistão também, por um ano. Os extremistas podem não recuperar território, mas eles vão explodir coisas em Damasco. Não será tranquilo e os russos terão de lidar com isso de maneira permanente. 

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