'O risco é que a Rússia invada a Ucrânia'

Para analista que estreia coluna no 'Estado' hoje, decadência de Moscou não impede que Putin lute por interesses na região

Entrevista com

RENATA TRANCHES, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h04

Após décadas de declínio, a Rússia tem na Ucrânia um dos últimos resquícios do seu poder de influência e não vai abrir mão dele facilmente, na opinião do fundador e presidente da consultoria Eurasia Group, Ian Bremmer.

Em entrevista ao Estado durante visita a São Paulo, onde abriu escritório, Bremmer afirmou que os EUA gastam energia demais na tentativa de selar um diálogo de paz entre israelenses e palestinos e o Departamento de Estado deveria dar mais atenção ao Irã, onde há chances de um grande acordo.

A seguir, os principais trechos da entrevista do especialista americano que passa a escrever mensalmente no Estado.

Que lição a crise da Ucrânia deixou sobre o atual equilíbrio de forças?

A Rússia está em decadência há décadas. Ela entrou em decadência com a queda da URSS. Decadência demográfica, diplomática, econômica, militar, de todas as maneiras que você pensar. Eles sentem que os EUA ajudaram nisso. A Ucrânia foi a última gota. A Rússia acredita que a Ucrânia é seu território. Isso não é só (o presidente) Vladimir Putin, é como pensam os russos. Então, de repente, há um conflito sobre a Ucrânia. Um acordo entre o presidente (Viktor Yanukovich) e a oposição é mediado pelos ministros das Relações Exteriores europeus, mas a oposição quebra esse acordo. Os EUA pensaram que teriam um novo governo para lidar. Mas a Rússia mostrou que não iria tolerar isso. Não quer dizer que a Rússia seja um grande e poderoso país, mas que os russos não vão desistir do maior interesse internacional que eles têm. O único porto em águas não geladas, um país decisivo. Eles não vão desistir.

Quais os interesses russos?

Os interesses da Rússia na Ucrânia são vastamente maiores do que os americanos ou europeus. O governo ucraniano quis se voltar para o Ocidente. Ele pediu dinheiro e dissemos não. Os europeus não entregaram para eles. Poderíamos ter dado mais, mas não o fizemos, porque não era tão importante. Agora, os russos estão demonstrando força, em seu próprio quintal. Eles conseguiram a Crimeia. O primeiro-ministro (Dimitri Medvedev) esteve lá e mostrou que não vai desistir. A Rússia quer mais influência sobre o governo ucraniano e isso será uma luta. Agora há uma negociação, mas ela não está indo muito bem. Os EUA não vão travar uma batalha militar, mas há consequências. O G-8 acabou, mas já era uma experiência ruim. A questão agora é como a Rússia vai orientar-se no mundo estratégica e economicamente, o que terá um significado para os países que têm uma grande ligação com a economia russa, como a Alemanha e outros europeus.

Quais são os riscos?

O risco nesse cenário é que a Rússia invada a Ucrânia e os países europeus se vejam forçados a aplicar duras sanções contra Moscou. Isso poderá acarretar consequências e até uma recessão para o próprio bloco. Um risco que, de certa forma, é do interesse do Brasil, pelas ligações econômicas globais.

A crise ucraniana terá impacto nas discussões sobre Síria e Irã?

Os EUA não fizeram um bom trabalho diplomático na Ucrânia. Houve erros. Mas com o Irã, os EUA estão fazendo um trabalho muito bom. Mesmo com os problemas com os russos, essas negociações não foram prejudicadas. Há uma grande chance desse acordo definitivo ser alcançado. Agora, se ele não acontecer, mas os EUA não conseguirem o apoio do Congresso, aí sim a relação com a Rússia será um problema.

E a Síria?

Na Síria, o fato é que (Bashar) Assad está vencendo. Estava vencendo antes da crise na Ucrânia e está vencendo agora. A Rússia ajudou a convencer o regime a entregar as armas químicas, mas ele não liga se vai matar com armas químicas ou convencionais. Ele só quer acabar com isso. Ninguém pode fazer nada. Os EUA deram algum apoio aos rebeldes, os russos apoiaram ainda mais o governo sírio. Vamos ver quem vai ganhar.

E o que o sr. pensa das negociações de paz entre israelenses e palestinos?

Na verdade, estão tendo bastante atenção por parte do governo americano. Kerry viajou para lá umas 12 vezes. Não sei porque ele continua fazendo isso. Queria que ele parasse, é uma perda de tempo. Não há confiança mútua entre israelenses e palestinos para mover esse processo e não há confiança da parte dos palestinos na habilidade americana para conduzi-lo. Não tem como conseguir um acordo de paz a menos que palestinos e israelenses queiram isso mais do que os americanos. Se Kerry quer um grande acordo feito, ele deveria se concentrar no Irã, onde é possível conseguir. Desde o primeiro dia achei que seria uma perda de tempo e fiquei surpreso de ver Kerry gastando tanta energia fazendo algo que claramente não iria dar certo.

Como analisa a política externa brasileira hoje?

O Brasil, como parte dos Brics, pode desempenhar um papel muito importante de outras maneiras. Claramente, o Brasil desempenha um papel muito importante na África, especialmente na África lusófona. Esses são países que estão se desenvolvendo e crescendo muito bem. O governo brasileiro tem oportunidades únicas de acordos e negócios, acho que é muito promissor. No Mercosul, a Argentina tem perdido cada vez mais peso. O Brasil precisa encontrar um jeito de lidar com isso. Se você me perguntar se o Brasil joga um papel importante na agenda internacional, bem, Dilma não é Lula e ela não tem a projeção internacional nem a mensagem de Lula. As relações com os EUA estremeceram por conta do episódio de Snowden. Obama não está dando muita atenção, em geral, para a América do Sul. A economia brasileira não vem muito bem e um jeito de se conseguir atenção internacional é ter uma economia da qual todos querem participar. Mas agora o Brasil não está nesse papel.

Qual o futuro das relações entre EUA e Brasil?

Não vejo elas sendo reparadas agora. Não é uma prioridade para os EUA, que está focado no Oriente Médio, Ucrânia, Japão e China. A vantagem é que não há sérios conflitos na América Latina, não há com o que se preocupar em termos de conflitos entre países.

Como o sr. enxerga o futuro da Venezuela?

Poderá tornar-se mais violento. A oposição falhou consistentemente nas urnas. A economia vai piorar e um número cada vez maior de pessoas ficará insatisfeito e eventualmente haverá novos confrontos. Tenho dúvidas se isso se refletirá no processo eleitoral. A estratégia do governo é continuar a dividir a oposição para que não haja indivíduos fortes entre eles.

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