Staff Sgt. Charles M. Reger/U.S. Air Force via NYT
Staff Sgt. Charles M. Reger/U.S. Air Force via NYT

O rock como arma para a rendição de Manuel Noriega

Depois que o ditador panamenho - um apreciador de ópera - se refugiou na embaixada do Vaticano na Cidade do Panamá, soldados americanos colocaram para tocar em alto volume clássicos do rock

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 05h40

Um dia depois da invasão ao Panamá, o então comandante das Forças Armadas dos EUA Colin Powell teve de admitir que as forças americanas ainda não tinham localizado Manuel Noriega. “Estamos procurando por ele e vamos encontrá-lo”, disse Powell à imprensa. 

Enquanto não encontrava o ditador, o Pentágono não perdeu a oportunidade de anunciar que em sua residência, no Fort Amador, os soldados encontraram pornografia, um pôster de Hitler, bonecos de voodoo e cocaína (que mais tarde disseram se tratar de farinha de trigo). 

Tropas encontraram ainda uma mala com uma metralhadora de mão, US$ 3 milhões em espécie, discos de ópera - que o ditador era grande apreciador  -, garrafas de vinho israelense e conhaque francês. 

Os detalhes são contados por Russell Crandall, em seu livro Gunboat Democracy: U.S. Interventions in the Dominican Republic, Grenada, and Panama (Democracia com canhões: intervenções dos EUA na República Dominicana, Granada e Panamá, em tradução livre), que relata também que o ditador estava em um hotel com uma prostituta perto da Cidade do Panamá quando soube da invasão. Alertado por um de seus seguranças, ele conseguiu fugir. O governo Bush chegou a oferecer US$ 1 milhão por sua cabeça. 

Na véspera do Natal, um carro da embaixada do Vaticano na Cidade do Panamá foi enviado para encontrar Noriega em um local secreto. Usando shorts e camiseta e levando duas AK-47, Noriega entrou na representação diplomática, relata Crandall. 

Do lado de fora, o major-general Marc Cisneros negociava uma rendição pacífica. Sem sucesso, o comando americano, sabendo da paixão de Noriega por ópera, mandou que os soldados colocassem para tocar em alto volume clássicos do rock.

Na playlist da época, sucessos como I Fought the Law (The Clash), Voodoo Child (Jimi Hendrix) e, claro, Panama (Van Halen).  A estratégia não deu certo, segundo conta Crandall, por que depois de alguns dias oficiais do Vaticano começaram a reclamar que aquilo também estava “enlouquecendo a eles”. 

Após uma semana na embaixada, o núncio monsenhor José Sebastián Laboa convenceu Noriega que o melhor era se render. No dia 3 de janeiro, vestido em seu uniforme militar e segurando uma bíblia, o ditador se entregava e era levado como prisioneiro dos EUA, de quem um dia foi colaborador.

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