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O russo contestado

PARIS - Após a grande surpresa de sábado, com o triunfo dos revoltosos democratas de Euromaidan, em Kiev, poderíamos dizer que o pesadelo acabou e a Ucrânia, antiga província do império soviético, conquistou o direito de se ligar à Europa? A partida ainda não terminou.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2014 | 02h15

Claro que esses três meses de heroísmo popular na neve e no gelo levaram à deposição dos corruptos dirigentes de Kiev (com o lamentável e covarde Viktor Yanukovich em fuga). No entanto, a roleta do destino ainda se movimenta. Não sabemos em que casa ela vai parar.

A Rússia e Vladimir Putin perderam a partida? Ou poderão reverter o jogo? Duas questões precisam ser levantadas. A primeira é saber se a União Europeia terá a coragem e os meios para garantir o salvamento financeiro desse país arruinado que necessita de 40 bilhões. A segunda tem a ver com a unidade da Ucrânia: é um país dividido entre as regiões do lado oriental, próximas da Rússia e à ela ligadas econômica, histórica e culturalmente, e as do lado ocidental, que entendem que a felicidade está no Ocidente, na democracia e na Europa.

Para nós, ocidentais, a Europa deve vencer a partida. Mas, na prática, as coisas têm, às vezes, um outro perfil. Na grande cidade de Kharkov, do lado oriental, o poeta Serhiy Jadan quis demolir com seus amigos a estátua de Lenin, um monstro de várias toneladas. A população acorreu em massa para "proteger o pai da revolução de outubro dos vândalos". E o poeta bateu em retirada.

As mesmas cenas foram vistas em Donetsk, a leste da Ucrânia, onde a estátua de Lenin foi envolvida em fita adesiva e o Partido Comunista começou a recrutar voluntários para defendê-la contra os arruaceiros de Kiev.

Na capital, os deputados que foram tão covardes à época de Yanukovich legislam a torto e a direito para demolir o que eles, de modo servil, aprovaram até agora e para conseguir o triunfo da Europa. No entanto, em seu zelo tardio, cometem alguns erros. O mais grave foi a revogação, no sábado, da lei que tratava das línguas regionais e estabelecia que o russo era língua oficial no leste e no oeste do país.

Há algo mais estúpido? Uma língua é a essência de um povo, de um ser humano. Privá-lo da sua língua é mutilá-lo. Ora, nessas vastas regiões a leste da Ucrânia as pessoas falam russo, sempre falaram russo. Portanto, consideram o decreto uma ofensa e uma ameaça. "Bandidos assumiram o poder em Kiev. E nos proíbem de falar russo. Querem erradicar a alma da Ucrânia: são fascistas!"

É na Crimeia que a rejeição da "revolução" de Kiev provoca as reações mais fortes. E por que na Crimeia, península ao sul de Donetsk, que avança para o Mar Negro, com o grande porto militar em Sebastopol? Em Sebastopol, 60% dos habitantes são russos. E, desde 1967, a base naval está arrendada para Moscou, que controla a vida da cidade, sua prefeitura, suas engrenagens. A língua russa é falada por todo mundo. Em muitas bibliotecas não se encontram livros em ucraniano.

"Eles querem apagar nossa história, nossa identidade", reclamam os habitantes de Sebastopol. Guennadi Bassov, que dirige o bloco pró-russo e milita pela reabsorção da Crimeia à Rússia, vocifera: "Kiev foi tomada pelos fascistas. Eles virão até nós se não fizermos alguma coisa."

Milícias antifascistas recrutam voluntários para bloquear o caminho dos "banderovtsi" - alusão a Stepan Bandera, que liderou o movimento nacionalista ucraniano no século 20 e é considerado um herói na parte ocidental do país, mas descrito como um velhaco na Crimeia e em Donetsk.

Os "berkut", os terríveis policiais das tropas de choque que massacraram os manifestantes de Euromaidan, são originários da Crimeia e de Donetsk. Em Kiev, foram vaiados e perseguidos. Quando retornaram a Sebastopol, no sábado, foram aclamados como uma equipe medalhista retornando das Olimpíadas.

Claro que as coisas não são assim tão estanques. Nas regiões orientais, há também partidários da democracia e da Europa. E, do lado ocidental, encontramos também pessoas nostálgicas da Rússia.

Sabemos como é perigoso e frívolo ignorar ou humilhar a história de um país, sobretudo países cuja história é longa, movimentada e gloriosa - como a Ucrânia.

A Ucrânia foi o primeiro embrião da Rússia, pois Kiev, a partir do ano 882, tornou-se a capital do primeiro Estado russo. No entanto, essa é apenas uma parte da história ucraniana. Há também um "momento europeu" e, como toda velha nação, a Ucrânia é composta de estratos superpostos, como uma espécie de "mil-folhas". E essas folhas devem ser tocadas com extremo cuidado.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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