Monica Almeida/The New York Times
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O salto asiático

Asiáticos, anglo-saxões e nórdicos alcançaram mais resultados que os latinos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2018 | 03h00

Estou voltando de um giro de três semanas pela China, Coreias do Norte e do Sul e Cingapura. Foi desconcertante assistir, da Ásia, à breve “venezuelização” do Brasil: caos, desabastecimento, flerte com o precipício. Com exceção da Coreia do Norte – que, no entanto, pode estar dando os primeiros passos nessa direção –, os países por que passei estão, em estágios diversos, com erros e acertos, organizados para dar prosperidade aos seus povos.

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China, Coreia do Sul e Cingapura são muito diferentes. A China é o planeta de 1,4 bilhão de habitantes, um terço dos quais já ingressou na classe média, com ditadura de partido único assumida, que agora evolui para um sistema autocrático personalizado em Xi Jinping. Cingapura é uma pequena cidade-Estado, sob democracia apenas formal, que não permite alternância de poder. A Coreia do Sul é uma democracia liberal em fase de amadurecimento.

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Mas elas têm algo em comum: um projeto de país coerente com o mundo atual. A ênfase dos três está na educação. Não qualquer educação, mas a que prepara os cidadãos para uma vida em que a recompensa é resultado do trabalho árduo, o talento deve ser lapidado e o conforto material não é direito adquirido, mas uma conquista. A ética confucionista, que põe o esforço e a disciplina no centro do amadurecimento pessoal, perpassa essas culturas tão diversas.

Os três países partiram do dirigismo estatal não como fim em si mesmo, mas para criar condições para a iniciativa privada florescer e se inserir no mundo da competição, da inovação e da qualidade. É provável que seus “pais fundadores” não tivessem ideia clara disso, mas hoje pouco importa. O Estado, em vez de obstáculo, serviu de trampolim para lançar esses países no mundo. Cada um identificou os traços inerentes que lhe proporcionavam potencial vantagem competitiva. Cingapura, porto estratégico construído pela antiga matriz colonial inglesa, desenvolveu excelência em logística, setor crucial no capitalismo globalizado. 

Inspirada na história de sucesso do Japão, e na própria cultura empresarial, a Coreia do Sul consolidou os chaebol, conglomerados inicialmente monopolistas e corruptos, cuja solidez financeira e diversidade de ramos de atuação lhes permitiram criar marcas que hoje concorrem com gigantes americanas, europeias e japonesas.

A China partiu da mão de obra barata, câmbio depreciado e mercado interno colossal para se transformar no fornecedor de manufaturados do mundo. Agora, investe parte de suas monumentais reservas em programas de inovação arrojados e espalha infraestrutura por todos os continentes, com a iniciativa “Belt and Road”.

São caminhos diferentes. O que é natural. As vantagens competitivas eram distintas. Os três têm em comum a capacidade de discernir seus pontos fortes na interação com o mundo real, e desenhar um projeto que transforme esse potencial em ponte para a prosperidade. Não se pode transplantar esses modelos para o Ocidente de forma mecânica. Os asiáticos têm um jeito próprio de encarar a vida, marcado pelo empirismo. Experimentam, sem tanta elucubração ou pavor de errar. Se não der certo, buscam outra forma, com suor e lágrimas, mas sem tanto drama.

Acho que isso aproxima os asiáticos dos anglo-saxões e nórdicos, que alcançaram mais resultados que os latinos. As culturas latinas têm enormes qualidades, nos campos artístico e afetivo. Mas um pouco de dado de realidade, continhas na ponta do lápis e mão na massa não fazem mal. É o que Emmanuel Macron está fazendo na França e Mauricio Macri, na Argentina. O Brasil precisa de um gestor assim. A janela de liquidez financeira no mundo está se fechando. As coisas só tendem a ficar mais difíceis para os que não fazem a tarefa de casa.

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