Korea Summit Press Pool via The New York Times
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Lourival Sant'Anna
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O salto da Coreia do Sul 

Como um mesmo povo construiu dois países tão diferentes entre si?

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2019 | 05h00

Acabo de passar uma semana na Coreia do Norte e outra na Coreia do Sul. Havia feito isso também um ano atrás. Tenho escrito sobre a importância da cultura nas crenças e hábitos da economia e da política. A comparação entre as duas Coreias inverte esse ângulo: como um mesmo povo construiu dois países tão diferentes entre si?

A Coreia do Norte vive desde 1948 sob um regime totalitário. Por trás do culto religioso ao “supremo líder”, está o poder do Exército, uma casta superior que escraviza o restante da população. Todo norte-coreano é funcionário público. Tudo pertence ao Estado e é por ele controlado.

A Coreia do Sul também teve regimes autoritários. Sua economia também passou pelo controle do Estado, que apoiou a formação dos “chaebol”, conglomerados donos de marcas como Samsung, LG, Hyundai e Kia. Ergueu barreiras protecionistas, nos anos 70 e 80, que naquela época impulsionaram as exportações e contiveram importações.

Quando as regras mundiais do livre-comércio se impuseram, a Coreia do Sul estava pronta para competir. Em 1995, entrou para a Organização Mundial do Comércio. Em 2004, concluiu seu primeiro acordo de livre-comércio, com o Chile, que fazia um percurso parecido. Nesses 15 anos, abriu sua economia, fez acordos com a China, União Europeia e EUA, e aderiu à Parceria Trans-Pacífico (TPP). Samsung e LG são grandes concorrentes da Apple. Mesmo assim, os produtos da Apple não custam na Coreia do Sul muito mais do que nos EUA. O mesmo se aplica aos automóveis e a outros bens industrializados. 

Nesse período a Coreia do Sul também consolidou sua democracia. Desde 1988, o país tem eleito presidentes a cada cinco anos. Em 2017, Park Geun-hye, primeira mulher eleita presidente no Leste Asiático, foi destituída por corrupção, em meio a manifestações que entraram para a história como “Revolução das Velas”. Ela é filha do general Park Chung-hee, ditador entre 1963 e 1979. O impeachment fechou um ciclo.

A Coreia do Norte também passa por mudanças, embora menos visíveis. Depois que conseguiu construir mísseis de longo alcance com ogivas nucleares, Kim Jong-un se distanciou da doutrina Songun, ou “Exército em primeiro lugar”. Embora o Exército continue todo-poderoso, os esforços do regime se concentram agora no desenvolvimento econômico. 

Foi nesse contexto que ele se lançou nas negociações de paz com os presidentes Moon Jae-in, da Coreia do Sul, e Donald Trump, dos EUA. Só não espere, como faz Trump, que Kim abra mão de seu arsenal nuclear. Ele considera a condição de “potência nuclear” vital para seu regime.

A zona rural da Coreia do Norte lembra as fotos da Coreia do Sul dos anos 50. O país parou no tempo. A renda per capita continua a mesma de 60 anos atrás: próxima de zero. A da Coreia do Sul saltou de US$ 80 para US$ 30 mil, sem aumentar a desigualdade. Enquanto a Coreia do Norte ficou sob a esfera de União Soviética e China, a Coreia do Sul sofreu influência dos EUA. Os americanos forçaram os sul-coreanos a fazer a reforma agrária, o que os arrancou do feudalismo e permitiu sua modernização e democratização. A ajuda financeira americana e a indenização de guerra do Japão foram investidas na educação, infraestrutura e industrialização.

O general Park exigia que os trabalhadores devolvessem vazio cada saco de cimento enviado pelo governo, para evitar desvios, e ajudava mais as aldeias em que os agricultores se esforçavam mais. Havia preguiçosos na Coreia do Sul, mas a ética do trabalho e da honestidade se impôs. 

Dois economistas com quem conversei em Seul usaram a mesma expressão: “Demos sorte”. Entendo o que eles querem dizer, mas concordo mais com o economista americano Dwight Perkins: “Nunca uso a palavra ‘milagre’, porque o desenvolvimento da Coreia do Sul foi resultado da dedicação de seu povo”.

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