O século asiático?

Para permanecer em paz, continente deve promover pactos regionais que incluam EUA

Richard N. Haass*, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2013 | 02h13

Já se tornou uma espécie de clichê prever que a Ásia dominará o século 21. É uma previsão segura, dado que o continente abriga quase 60% da população mundial e responde por 25% da produção econômica global. A Ásia é também a região onde muitos dos países mais influentes deste século - incluindo China, Japão, Rússia, Coreia do Sul, Indonésia e Estados Unidos - interagem.

No entanto, apontar para a crescente importância da Ásia não diz nada sobre seu caráter. Pode haver dois séculos asiáticos muito distintos e o que surgir terá consequências profundas para os povos e governos da região - e para o mundo.

Uma possibilidade de futuro seria uma Ásia relativamente familiar: uma região cujas economias continuarão a apresentar níveis fortes de crescimento e conseguirão evitar conflitos entre elas.

Um outro futuro não poderia ser mais distinto: uma Ásia de tensões intensificadas, orçamentos militares crescentes e crescimento econômico mais lento. Essas tensões poderiam causar efeitos colaterais, prejudicando comércio, turismo e investimento, especialmente se ocorrerem incidentes entre forças rivais operando em estreita proximidade ou em torno de águas ou territórios disputados. O ciberespaço é outro domínio no qual a competição poderá fugir de controle.

A questão é a seguinte: a Ásia do século 21 se parecerá com a Europa - a região dominante em boa parte da história moderna - da primeira metade do século 20, quando os países europeus experimentaram duas guerras, com custos e destruição sem precedentes, ou com a Europa da segunda metade, quando as tensões com a União Soviética foram administradas e a Europa Ocidental experimentou uma paz e prosperidade sem precedentes?

A referência à Europa é instrutiva, porque ela não teve sorte apenas. A história se desenrolou dessa maneira porque seus líderes demonstraram grande visão e disciplina. Assim, adversários de longa data como França e Alemanha se reconciliaram dentro de um projeto de âmbito regional - primeiro, a comunidade de carvão e aço, que se expandiu para virar a Comunidade Econômica Europeia e, por fim, a União Europeia, que integrou o continente política e economicamente de tal forma que um conflito violento se tornou impensável.

Acordos regionais. Tudo isso deve ser levado em consideração, porque poucos paralelos serão encontrados na Ásia contemporânea. Ao contrário, a região é notável pela falta de instituições e acordos regionais significativos, particularmente nas esferas político-militar e de segurança. Além disso, uma acentuada falta de conciliação e acerto de antigas disputas torna muito fácil imaginar não só um incidente militar envolvendo dois ou mais vizinhos, mas a possibilidade de que tal incidente provoque algo maior.

Muitas dessas disputas remontam à 2ª Guerra ou a antes até: Coreia do Sul e China mantêm um forte sentimento antinipônico. Não existe um tratado de paz entre Rússia e Japão - e os dois países têm pretensões antagônicas sobre as Ilhas Curilas (chamadas de "Territórios Setentrionais" pelos japoneses). A fronteira entre China e Índia também é motivo de discórdias.

Aliás, o clima de segurança regional se agravou nos últimos anos. Uma razão disso é a persistente divisão da Península Coreana e a ameaça que uma Coreia do Norte com armas nucleares representa para seu próprio povo e seus vizinhos. A China contribuiu para as tensões regionais com uma política externa - incluindo a colocação de pretensões territoriais nos mares próximos - que seriam descritas diplomaticamente como "assertivas" - e, mais cruamente, como "intimidatórias".

O Japão, por sua vez, parece determinado a se livrar das muitas restrições militares que lhe foram impostas (e, até recentemente, acatadas pela vasta maioria dos japoneses) em consequência de seu comportamento agressivo nos anos 30 e 40.

Esses desdobramentos simultâneos refletem e reforçam um crescente nacionalismo por toda a região. É preciso uma diplomacia mais intensa entre governos asiáticos para acertar antigas disputas.

A partir daí, pactos regionais que promovam o livre comércio e façam frente às mudanças climáticas deveriam ser negociados. Por fim, um fórum regional deveria ser criado para melhor regulamentar a mobilização de forças militares, incluindo medidas de construção de confiança para reduzir o risco de incidentes e ajudar a administrá-los, caso eles ocorram.

Parte do que é necessário pode se moldar no que a Europa conseguiu. A Europa, porém, é relevante por outra razão: os europeus tiveram sucesso em manter a estabilidade e construir uma grande prosperidade nas últimas sete décadas em grande medida pela presença e papel dos americanos. Os EUA, uma potência no Atlântico, foram inteiramente integrados nos acordos econômicos e de segurança do continente.

Algo nessa linha, provavelmente, será igualmente crucial para a Ásia, onde os EUA, que são potência também do Pacífico, têm interesses vitais e compromissos profundos. O "pivô" estratégico dos americanos na Ásia deve ser, portanto, substancial e duradouro.

Futuro. Isso requererá que sucessivos governos em Washington enfatizem o livre comércio, aumentem sua presença aérea e naval na região e invistam em diplomacia para promover a integração da China com seus vizinhos em termos consistentes com os interesses dos EUA, seus aliados (Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália) e de seus muitos amigos.

A alternativa é uma Ásia abandonada a sua própria sorte - e um século asiático que seria dominado pela China ou caracterizado por acessos frequentes de tensão diplomática e até conflitos. Poucos na Ásia ou em outros continentes se beneficiariam de semelhante futuro.

*Richard N. Haass é presidente do Council On Foreign Relations.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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