O ''segredo'' da tinta invisível

Papéis da 1ª Guerra, mantidos pela CIA sob sete chaves, decifram ''mistério'' que até crianças conhecem

Peter Finn, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Está pensando em abrir envelopes fechados impunemente? Eis o segredo, segundo um dos seis documentos confidenciais mais antigos sob custódia da Agência Central de Inteligência (CIA): "Misture 8,85 gramas de arseniato de acetol de cobre, 85 gramas de acetona e acrescente 470ml de álcool amílico (óleo fúsel). Aqueça em banho-maria - o vapor emanado dissolverá o material usado para fechar o envelope, seja ele cola, cera ou óleo." Mas há um alerta para o intrépido espião: "Não inale o vapor".

Quase um século após a sua redação, a receita foi divulgada na terça-feira pela CIA como parte de um conjunto de seis documentos da época da 1.ª Guerra. Os documentos são de 1917 e 1918 - antecedendo em décadas a criação da própria CIA.

Um dos papéis relaciona substâncias químicas e técnicas necessárias para a produção de tinta invisível empregada naquilo que é charmosamente denominado de "escrita secreta". Outro documento, de junho de 1918, escrito em francês, traz a fórmula aparentemente usada pelos alemães em suas comunicações secretas durante a 1.ª Guerra.

Todos os documentos podem ser acessados na Sala de Leitura Eletrônica da Ata de Liberdade de Informação do endereço www.cia.gov.

Os seis documentos estiveram primeiro sob custódia do Gabinete de Espionagem Naval durante a 1.ª Guerra, e ao menos um dos papéis foi obtido com os franceses. Mas, como disse a CIA, não fica sempre claro a quem este material secreto seria destinado.

Um documento relacionando sete fórmulas químicas foi redigido sobre papéis do Departamento do Comércio, e um químico a serviço do instituto de padrões e medidas recomenda que algumas das soluções de tinta invisível sejam usadas com uma pena, e não com uma caneta, por causa do risco de corrosão.

Outro documento da coleção tinha como objetivo ensinar os inspetores do serviço postal americano a detectar a tinta secreta. O panfleto, que lista 50 situações possíveis nas quais a tinta invisível poderia ser usada, foi preparado por um especialista em caligrafia de San Francisco.

"Há alguns outros métodos usados por espiões e contrabandistas, segundo a habilidade e o nível de escolaridade dos criminosos, como escrever sob os selos, envolver as mensagens em cápsulas de remédios e entalhar mensagens... nas unhas do pé", que posteriormente se tornariam visíveis ao ser cobertas com pó de carvão, segundo o especialista, Theodore Kytka.

Alguns dos métodos descritos soavam divertidamente arcaicos, como trazer a solução embebida em lenços bem passados ou colarinhos engomados. "A peça de roupa submetida a este procedimento é então mergulhada na água e obtém-se uma solução, que pode ser usada como tinta invisível", de acordo com um dos documentos. "O melhor meio para revelar uma mensagem escrita é aplicar iodeto de potássio." Parece um pouco estranho que material deste tipo tenha sua confidencialidade preservada por quase 100 anos quando quase todas as crianças sabem brincar de tinta invisível usando um pouco de suco de limão. Os métodos por trás das sofisticadas técnicas de mensagens invisíveis permaneceram os mesmos por muitas décadas.

Em 1999, a agência rejeitou um pedido para a divulgação dos seis documentos, afirmando que atendê-lo significaria "expor ao risco a segurança nacional". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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