O segredo do insucesso da maior potência mundial

Análise:

NYT, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2012 | 03h01

Paul Krugman /

A economia americana, finalmente, parece estar se recuperando de verdade, com a habitação reagindo e a criação de empregos superando o crescimento da população economicamente ativa. No entanto, a notícia é apenas boa, não fabulosa - e ainda levará anos para o pleno emprego ser restaurado. E demorou um bocado para chegar.

Por que a depressão durou tanto? A resposta - respaldada por evidências esmagadoras - é que isso é o que normalmente ocorre após uma crise financeira grave. A equipe econômica de Mitt Romney, porém, nega essa evidência. Esse negacionismo é um mau presságio para a política, caso Romney vença no dia 6.

Sobre as evidências: o estudo mais famoso é o de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, que examinaram crises financeiras passadas e descobriram que elas são tipicamente seguidas por anos de desemprego alto e crescimento fraco. Trabalhos posteriores de economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) confirmaram essa análise: as crises que se seguiram à forte escalada da dívida do setor privado, do pânico americano de 1893 à crise bancária sueca do início do anos 1990, lançaram longas sombras sobre o futuro da economia. Não havia razão para acreditar que, desta vez, seria diferente.

Isso não é uma racionalização após os fatos. O estudo "de consequências" de Reinhart e Rogoff foi divulgado há quase quatro anos. E alguns outros economistas, eu entre eles, aliás, emitiram advertências parecidas.

No início de 2008, eu já estava assinalando a distinção entre recessões como a de 1973-1975 ou a de 1981-1982, causadas por taxas de juros altas, e recessões "pós-modernas", causadas por artimanhas do setor privado. Sugeri que a recessão em que estávamos entrando seria seguida por uma prolongada "recuperação sem empregos" que lembraria uma recessão continuada.

Por que é lenta a recuperação de uma crise financeira? Crises financeiras são precedidas por bolhas de crédito. Quando essas bolhas estouram, muitas famílias ou empresas são deixadas com altos graus de endividamento, o que as força a cortar seus gastos. Esse enxugamento, por seu lado, deprime a economia como um todo.

A resposta comum às recessões, cortar as taxas de juros para estimular os gastos, não é adequada. Muitas famílias simplesmente não conseguem gastar mais e as taxas de juros só podem ser cortadas até certo ponto - a saber, até zero, mas não abaixo disso.

Isso significa que nada pode ser feito para evitar uma retração prolongada após uma crise financeira? Não. Significa que é preciso fazer mais do que simplesmente cortar as taxas de juros. Em particular, o que a economia realmente precisa após uma crise financeira é de um aumento temporário dos gastos públicos para sustentar o emprego enquanto o setor privado recompõe seus balanços.

O governo de Barack Obama fez um pouco disso, abrandando a gravidade da crise financeira. Infelizmente, o estímulo foi pequeno demais e durou muito pouco, em parte por erros do governo, mas, sobretudo, pela prática de obstrução de "terra arrasada" dos republicanos.

Visões deliberadas. O que nos leva à política. Nos últimos meses, consultores da campanha de Romney montaram um furioso ataque à noção de que recessões de crises financeiras são diferentes. Por exemplo, em julho, o ex-senador Phil Gramm e o professor Glenn Hubbard, da Universidade Columbia, publicaram um artigo afirmando que deveríamos estar tendo uma recuperação comparável à da recessão de 1981-1982, enquanto um relatório de assessores de Romney argumenta que a única coisa que impede um boom estrondoso é a incerteza criada pelo presidente Obama.

Obviamente, republicanos gostam de afirmar que tudo é culpa de Obama e eleger Romney melhoraria tudo magicamente. No entanto, ninguém deve acreditar neles. Por um lado, essas pessoas têm um histórico: em 2008, quando estudiosos sérios já estavam prevendo uma recessão prolongada, Gramm estava depreciando os EUA como uma "nação de chorões" experimentando uma mera "recessão mental". Por outro lado, se Obama é o problema, por que os Estados Unidos estão se saindo melhor que a maioria dos outros países avançados?

O ponto principal, contudo, é que a equipe de Romney está deliberadamente, descaradamente, distorcendo os fatos, o que levou Reinhart e Rogoff - que não são ligados a nenhuma campanha - a protestar contra "interpretações equivocadas e grosseiras dos fatos". E isso nos deveria preocupar.

Vejam, a economia não é a ciência que nós gostaríamos que fosse. Entretanto, quando há evidências avassaladoras para uma proposição econômica - como há para a premissa de que recessões de crises financeiras são diferentes -, temos o direito de esperar que os políticos e seus conselheiros respeitem essas evidências. Caso contrário, eles acabarão fazendo uma política mais com base em fantasias do que na realidade.

Quando os políticos começam a se recusar a reconhecer alguns fatos inconvenientes, onde é que isso vai parar? Bem, a próxima coisa que vocês sabem que os republicanos começarão a rejeitar serão as evidências esmagadoras de que está em curso uma mudança climática no planeta causada pelo homem. Veremos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.