O segundo despertar do mundo árabe

Durante a última década, a credibilidade e legitimidade surradas de regimes árabes foram minadas pela revolução informática

Laurence Pope, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em 1938, George Antonius, um escritor e diplomata de ascendência libanesa-egípcia, escreveu um livro seminal intitulado The Arab Awakening (O despertar árabe, em tradução livre) rastreando a disseminação de ideias ocidentais no mundo árabe e as origens de uma nova consciência pan-árabe até instituições como a American University de Beirute e o Robert College em Istambul.

Nos anos do pós-guerra, essa visão otimista foi substituída pela ideologia do nacionalismo árabe, uma mal digerida mistura de marxismo e triunfalismo árabe resumida no slogan baathista: "Uma nação árabe, com uma missão imortal".

A retumbante derrota da agressão árabe por Israel em 1967 expôs a ideologia nacionalista árabe como uma fraude, e para a geração seguinte ela se tornou o deus que fracassara. O vazio ideológico resultante foi preenchido por versões mais ou menos virulentas de política islâmica, encorajadas durante algum tempo no Egito, Jordânia e imediações como um antídoto à ameaça de infiltração esquerdista do Estado e do Exército.

O assassinato de Anwar Sadat por extremistas islâmicos em 1981 provocou uma repressão e a proibição de partidos políticos islâmicos por todo o mundo árabe. O Iraque, segundo Estado árabe mais importante depois do Egito, permaneceu um Estado policial selvagem.

A política árabe estagnou sob o peso de regimes corruptos, (como os árabes dizem) do Oceano Atlântico ao Golfo, e tanto árabes quanto estrangeiros concluíram que essa era a ordem natural das coisas - os primeiros com desespero e autodepreciação, os últimos com um elemento de racismo presumido.

Os árabes observaram com fúria impotente enquanto os Estados Unidos derrubavam Saddam Hussein, mas não conseguiram garantir a paz; lançavam uma guerra ao terrorismo que parecia tratar os árabes principalmente como ameaças; e permitiam que o processo de paz estagnasse enquanto assentamentos israelenses comprometiam a última possibilidade de uma solução de dois Estados na Palestina. Agora está claro que essa estabilidade de túmulo era uma ilusão, e o mundo árabe não está morto, mas adormecido.

Durante a última década, a credibilidade e legitimidade surradas de regimes árabes foram minadas pela revolução informática.

O crescimento da televisão via satélite e da internet acabou com seu monopólio sobre o que seus cidadãos podiam ver e ouvir. Estações como Al-Jazira, que alcançaram virtualmente cada lar árabe, expuseram as mentiras de seus líderes - exceto pelos do Catar, onde a Al-Jazira tem sua sede.

Essa democratização da informação atingiu um estágio de inundação quando uma nova geração árabe ganhou acesso a ferramentas de relacionamento social como Facebook e Twitter.

Na Tunísia, e agora no Egito, vimos o resultado - os mais raros dos eventos, revoluções pacíficas. Mais peças de dominó árabes poderão cair nas próximas semanas e meses, embora isso não seja garantido.

Os regimes árabes que sobreviverem terão de aprender a montar no tigre demográfico de uma população jovem, zangada e recentemente fortalecida. Se - e é um grande "se" - os Exércitos egípcio e tunisiano seguirem o modelo turco, retornando eventualmente aos quartéis e deixando a política para instituições civis, as implicações para a política americana para o Oriente Médio serão profundas.

O que está por vir. Os Estados Unidos terão pela frente a tarefa de estabelecer uma relação de iguais com essas democracias emergentes, encerrando a política cliente/patrão do passado.

Israel não será mais nosso único parceiro democrático na região, e nossa atual negligência do processo de paz árabe-israelense provavelmente será insustentável, e muito menos desejável. Israel verá essa mudança com compreensível apreensão, mas com o tempo um novo relacionamento com um Egito mais democrático poderá lhe ser vantajoso.

Euforia injustificada? Veremos. Mas eu diria que há motivos para um otimismo sóbrio tanto no presente árabe quanto no passado árabe.

No século 14, o grande teórico político árabe Ibn Khaldun, com base em seu estudo do que hoje são os Estados modernos de Egito e Tunísia, escreveu o que chamou de "asabiyya", ou coesão social, que ele via como o componente fundamental de uma sociedade bem-sucedida.

Essa qualidade de coesão social foi evidente tanto na "Revolução de Jasmim" tunisiana quanto quando povo e Exército deram-se as mãos na Praça Tahrir, no Cairo, para remover um ditador odiado.

Os próximos tempos serão difíceis, é claro. Reconstruir sociedades árabes em linhas mais democráticas será a tarefa de uma geração. Mas após este segundo despertar árabe, está claro que o mundo árabe jamais será o mesmo. Isso, em si, já é motivo para se comemorar. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EX-DIPLOMATA AMERICANO E EX-CONSELHEIRO POLÍTICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.