O segundo golpe revolucionário do Egito

Permitir que os militares egípcios reprimam os protestos significa o fim do processo revolucionário e, com ele, do que resta da frágil credibilidade dos EUA entre os árabes

É EX-CHANCELER DE ISRAEL, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE, É EX-CHANCELER DE ISRAEL, SHLOMO, BEN-AMI, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2011 | 03h05

O processo revolucionário em suas várias etapas depende de muitos fatores, como o socioeconômico, as tradições históricas de um país e a influência de potências estrangeiras. Por isso, nunca se supôs que a primavera árabe fosse um processo linear ou uma versão das revoluções democráticas não violentas da Europa Oriental de 1989.

O Egito é um exemplo. A estrutura das revoluções ocorridas nas sociedades não industrializadas compreendeu uma sucessão de ondas revolucionárias e contrarrevolucionárias. A queda do antigo regime sob o peso de um levante popular, em geral, é apenas o começo de uma luta pelo controle dos rumos da revolução.

O movimento que ocupou a Praça Tahrir, em fevereiro, que começou sem líderes, foi motivado por duas reivindicações: décadas de humilhação sob um governo autocrático e uma impaciência com a promessa de uma transição democrática.

Do mesmo modo, os novos tumultos que ocorrem no Egito refletem a indignação popular com o fato de o Exército ter se apropriado da revolução e com a humilhante transição tutelada, supervisionada pelo Conselho Supremo das Forças Armadas e pelo marechal Hussein Tantawi. A massa que ocupou a Praça Tahrir queria a revolução, mas agora está claro que o que ocorreu foi um golpe de Estado militar. Eles sacrificaram o ex-presidente Hosni Mubarak para salvaguardar a antiga estrutura de poder, da qual o Exército é um dos pilares.

Nova Constituição. Os generais do Egito não confiavam na capacidade dos cidadãos de produzir uma democracia que funcionasse. Portanto, os militares alongaram a transição, frustrando as expectativas do povo, e determinaram que a nova Constituição não teria nenhuma forma de controle parlamentar sobre o Exército.

O mais significativo é talvez o anseio dos generais de emular o antigo modelo turco, que faz do Exército o guardião da ordem constitucional secular. Por ironia, esse modelo está sendo abandonado na Turquia. A insistência dos generais é inaceitável para os liberais e representa uma advertência para a Irmandade Muçulmana de que o Exército poderá usar qualquer pretexto para considerá-la uma ameaça. Se conseguirem o que pretendem, eles transformarão o Egito numa democracia tutelar sob a constante ameaça de um golpe militar.

Toda democracia árabe digna do nome deve respeitar as estruturas sociais e, portanto, o papel da religião na sociedade. O temor do predomínio islâmico talvez não seja mais usado para menosprezar as reivindicações de liberdade política. A tarefa de conciliar uma sociedade devota com os valores da democracia secular é evidentemente árdua, mas a Turquia e, esperamos, a Tunísia são exemplos que vale a pena acompanhar.

Além disso, não está claro que a Irmandade Muçulmana se tornará a força dominante do Egito, como muitos temem. A atual preeminência do grupo decorre da sua aura de única força da oposição que sobreviveu à opressão de Mubarak. Numa democracia, o poder dos islâmicos deve se diluir na competição com uma ampla variedade de formações políticas e sociais.

Desafio. A primavera árabe, no entanto, não é apenas uma revolta contra os ditadores árabes. É também um poderoso desafio à cumplicidade do Ocidente com os tiranos da região. Até agora, a atuação dos EUA tem sido desigual. No Egito e na Tunísia, eles desempenharam um importante papel no momento decisivo. A Líbia foi resgatada pelos seus vizinhos europeus. No Golfo Pérsico e na Síria, os EUA praticamente abandonaram os manifestantes pró-democracia.

A repressão no Egito deve fazer com que os EUA pressionem o Exército para adotar uma transição para um governo civil. Permitir que os militares reprimam as reivindicações populares significa o fim de todo o processo revolucionário e, com ele, do que resta da frágil credibilidade dos EUA entre os árabes. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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