O senhor Xi vai a Moscou

Apesar de todos os apertos de mão, a relação entre China e Rússia permanece sendo basicamente uma 'competição estratégica'

O Estado de S.Paulo

29 de março de 2013 | 02h06

Em sua primeira incursão no exterior como novo líder da China, a primeira parada de Xi Jinping na semana passada foi em Moscou, dando a impressão de que os vizinhos asiáticos gigantes eram amigos dispostos a ampliar sua "parceria estratégica".

Mas a despeito de todos os apertos de mão e acordos culturais, a relação entre a China e a Rússia permanece sendo basicamente uma "competição estratégica" - na qual a China em ascensão tem claramente as melhores cartas.

Na aparência, as relações sino-russas estão tão boas como sempre estiveram. Disputas fronteiriças foram deixadas de lado (por enquanto) e Xi ajudou a dar o pontapé inicial em um "Ano do Turismo Chinês".

Mas o fato de que após tantas cúpulas os dois países não tenham chegado minimamente perto de uma aliança formal é revelador. A verdade é que os interesses nacionais de China e Rússia são, em grande parte, divergentes - exceto por um desejo comum de mudar a atual ordem mundial dominada pelos Estados Unidos, explícito na Rússia, implícito na ascensão da China.

Considerem-se os interesses da China. Seu oeste não tem saída para o mar e é pobre, mas a Rússia tem pouco a oferecer ali. A China cultivou assiduamente Mianmar, investindo em projetos de infraestrutura gigantescos que lhe dariam acesso direto ao Oceano Índico. Mas a China espremeu Mianmar de tal forma que os birmaneses agora estão tentando contrabalançar o poder chinês com uma aproximação dos Estados Unidos.

No leste, a política contínua de Pequim tem sido a de manter a Rússia o mais distante possível dos assuntos do Extremo Oriente. Pequim não quer nenhuma ajuda da Rússia no Mar do Sul da China, ou em sua disputa com o Japão pelas Ilhas Senkaku/Diaoyu. A Rússia, por sua vez, procura melhorar suas relações com o Japão.

A Rússia também não oferece nenhuma ajuda ao dilema da China sobre a Coreia do Norte, onde Pyongyang ignora diretrizes de Pequim com impunidade na presunção de que a China tem muito medo de precipitar uma unificação sob os auspícios da Coreia do Sul e dos EUA para fazer algo a respeito.

Mesmo no âmbito dos hidrocarbonetos, o interesse chinês no petróleo e no gás russos é, em grande parte, uma apólice de seguro, dado o acesso que a China tem ao petróleo africano e do Golfo Pérsico e ao gás da Ásia Central, para não falar no gás de xisto, que a China possui em abundância.

Depois de Tiananmen (o massacre na Praça da Paz Celestial), Moscou forneceu 95% dos sistemas chineses de armas e os armamentos russos continuam a ser do maior interesse de Pequim. Mas Moscou ficou cautelosa em razão da China copiá-la. As vendas despencaram.

Alguns conservadores chineses saúdam o estreitamento de laços com a Rússia não só como um contrapeso aos Estados Unidos, mas como uma espécie de admiração mútua autoritária. Mesmo assim, pouquíssimos chineses dão muita atenção à Rússia.

Em um nível pessoal, Xi Jinping, como todos os comunistas chineses de sua geração, estudou russo na escola. Mas, para ele, a União Soviética, cujo colapso é assiduamente estudado pelas elites chinesas, oferece apenas um contundente exemplo negativo.

Quanto à Rússia, a atenção de Vladimir Putin está centrada na Europa e nos Estados Unidos. Para ele, a "parceria estratégica" com Pequim significa, em grande parte, satisfazer sua obsessão por Washington. Uma afirmação compartilhada de "soberania" - quando ela significa bloquear direitos humanos universais e a promoção da democracia, que a China e a Rússia veem como pretexto para promover interesses de Estado americanos - instila um certo laço emocional. O discurso sobre a soberania acima de tudo de Xi no Instituto de Relações Exteriores de Moscou foi bem recebido.

Mas esse bálsamo psicológico para a perda de estatura global cobra um alto preço da Rússia. A China recebe toda sorte de presentes em troca - incluindo petróleo, evidentemente abaixo dos preços de mercado mundiais (o lobby do gás da Rússia se recusa a cooperar); aquiescência russa no expansionismo da China na Ásia Central; e não envolvimento russo no Leste Asiático.

A alardeada ampliação nesta visita de empréstimos chineses para o petróleo russo, ou o acordo ainda pendente sobre gás, só confirmam o real status da Rússia como, sobretudo, uma fornecedora de matérias-primas.

Quando a "parceria estratégica" se resume a conter em conjunto o poder americano, ela na verdade significa a Rússia facilitar a extensão do poder da China na Eurásia.

Esse desequilíbrio não passou despercebido para algumas autoridades em Moscou, que murmuram que ao explorar a nostalgia de grande potência da Rússia, a China oculta a expansão de sua influência à custa de Moscou, em particular na Ásia Central. Mas isso não é algo que os russos possam dizer publicamente.

Há mais uma questão em que as duas potências divergem. A Rússia é um arremedo de democracia, e a China é um arremedo de comunismo, mas ambas compartilham a condição de "equilíbrio com reforma parcial" - o fenômeno pelo qual grandes reformas liberalizantes produzem vencedores que, por sua vez, se organizam em grupos de interesses poderosos que bloqueiam novas reformas.

Xi suscitou esperanças de estar disposto a fazer reformas e de ser capaz disso. Putin não suscita essas esperanças. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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