REUTERS/Ammar Abdullah
REUTERS/Ammar Abdullah

O serralheiro de Manbij

A euforia inicial dos protestos acabou abafada pela guerra e tem se manifestado na poesia

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2016 | 20h36

Quando os protestos contra o governo do presidente Bashar Assad começaram na Síria, Abud Said vivia um cotidiano comum na pequena Manbij, nos arredores de Alepo, trabalhando com metais. “Ele queria confrontar o universo cibernético que se apresentava como um rígido contraste à sua própria realidade empobrecida e provinciana”, escreveu Sandra Hetzel, tradutora alemã de seu primeiro livro, O cara mais esperto do Facebook (Editora 34), que descobriu seus textos na internet.

A revolução pessoal de Said coincidiu com a revolução no mundo árabe. Ele faz parte de uma nova geração de poetas sírios que emergiu com a guerra. 

Said abriu conta no Facebook pouco antes dos protestos na Tunísia, mais tarde seguidos por Egito, Líbia e Iêmen. A Primavera Árabe provocou, no início, uma onda de euforia, principalmente entre jovens. Said não pensava em se tornar escritor, mas sua forma de lidar com a euforia era escrever. 

Quando os sírios tomaram as ruas na primavera de 2011, Said se juntou a eles. “Não éramos livres”, disse, quando o encontrei para um bate-papo na quinta-feira. Ele está no Brasil para Flip – a Festa Literária de Paraty. 

Com os primeiros protestos, a barreira do medo se quebrou, acredita Said. Foi dessa descoberta da liberdade que a arte explodiu. Quando o regime respondeu brutalmente às manifestações, os sírios se deslocaram para o espaço seguro e possível da internet.

Escritores com trabalhos já publicados, como Faris Al-Bahra, Lukman Derky, Raid Wahsh, Mosab Al-Numairy, Zakaria Tamer, passaram a se manifestar nas redes sociais. No espaço virtual começaram a dialogar com outros, ainda anônimos: Ammar Tabbab, Aref Akrez, Fadwa Suleiman, Khawla Dunia, Marwa Katbi, Najat Abdul Samad, advogados, médicos, ativistas que começaram a escrever para lidar com a realidade que os cercava. 

Said diz que a revolução inspirou uma transformação radical na consciência estética e na produção cultural do país. A euforia inicial dos protestos acabou abafada pela guerra e tem se manifestado na poesia dessa nova geração de escritores. “Eu escrevo sobre detalhes”, disse. Mas os detalhes de seu cotidiano são profundamente afetados pelos conflitos.

Manbij foi ocupada pelo Exército Sírio Livre, de oposição ao regime e, entre 2012 e 2013, foi bombardeada pelo governo de Assad. Said conta que, quando os bombardeios se intensificavam, ele ouvia música em volume muito alto, punha fones de ouvido, abria o computador e começava a escrever. “A única coisa que eu podia fazer era continuar escrevendo”, diz. “Só mais tarde me disseram que era poesia.”

Com o agravamento do conflito, que matou mais de 500 mil sírios e obrigou a metade da população a deixar suas casas, Said também decidiu emigrar. Ele não tinha passaporte e atravessou clandestinamente a fronteira para a Turquia. Meses depois, sua cidade foi ocupada pelo EI e seu irmão foi morto. A mãe emigrou com outros filhos para a Turquia. 

Desde que chegou à Alemanha, em outubro de 2013, Said evita falar sobre a guerra. Em um trecho do livro, explica: “Não sou nenhum porta-voz do povo sírio ou dos ‘refugiados’. Eu só posso falar por mim mesmo. E parte do problema é justamente que agora eu tenho aqui um palco, porque escrevi um livro, mas as pessoas que realmente têm algo a dizer, elas que agora mesmo lutam contra o regime e contra o EI, aquelas mesmas pessoas que ainda estão na Síria, os civis que vivem sitiados: a elas, ninguém dá ouvidos.”

 

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