Rodrigo Cardoso/ The new York Times
Rodrigo Cardoso/ The new York Times

O setor do ciclismo explodiu em Portugal

Para atender ao salto na demanda, a fábricas de bicicletas do país estão erguendo novas instalações, contratando mais trabalhadores e enfrentando escassez de peças

Raphael Minder, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 20h00

VOUZELA, Portugal - Dentro de uma fábrica erguida em meio a eucaliptos, no interior de Portugal, funcionários cortam cuidadosamente finas tiras de carbono e as colocam em prensas para moldá-las. Um trabalho lento e delicado.

Mas depois de cada molde passar pelo forno a 200 graus Celsius, o resultado é um quadro de bicicleta incrivelmente leve, que chega a ser vendido por cerca de US$ 7 mil, o que ajuda a acelerar a ascensão de Portugal enquanto maior fabricante de bicicletas da União Europeia.

A demanda por bicicletas está nas alturas, em parte graças à pandemia de coronavírus. Mais pessoas decidiram começar a pedalar para ficar em forma após longos confinamentos ou para evitar trens e ônibus lotados no caminho para o trabalho. Os políticos, cientes dos benefícios ao meio ambiente ocasionados pelo hábito de pedalar, estão criando mais ciclofaixas nas cidades, incluindo Paris, Berlim, Lisboa e Barcelona, na Espanha.

E isso tem sido uma dádiva para o norte de Portugal, onde há uma grande concentração de fábricas ligadas ao setor do ciclismo. Cerca de 60 empresas da região montam bicicletas ou fabricam peças e acessórios, incluindo manoplas, freios e capacetes.

O país de 10 milhões de habitantes - pouco mais de 2% da população da União Europeia - fabrica aproximadamente um quarto das bicicletas produzidas no bloco. O setor do ciclismo em Portugal se tornou um dos empregadores em maior crescimento no país, cuja força de trabalho se expandiu em 65% nos últimos cinco anos, para 7,8 mil trabalhadores, de acordo com a Abimota, uma associação que representa essa indústria.

O crescimento se deve em parte a leis protecionistas de comércio que evitam a entrada das baratas bicicletas chinesas nos países do bloco europeu. As fábricas portuguesas de bicicletas contrataram trabalhadores qualificados que foram abandonados quando empresas de outros setores fecharam as portas ou mudaram de lugar atrás de mão de obra mais barata.

Mas quando a demanda aumentou, os fabricantes de bicicletas esbarraram nos mesmos problemas de cadeia de fornecimento que prejudicaram tantas outras indústrias, vendo-se obrigados a interromper a produção porque peças fabricadas na Ásia estavam em falta. Isso incentivou um investimento adicional na região, incluindo no empreendimento que, acredita-se, é a primeira linha de produção de quadros de bicicleta de carbono da Europa. A fábrica foi inaugurada em janeiro.

“Uma lição da pandemia foi que precisamos estar mais próximos dos polos de produção”, afirmou Emre Ozgunes, diretor geral da Carbon Team, a empresa proprietária da fábrica, “porque mesmo se tudo fechar, você ainda poderá dirigir até Portugal e buscar os quadros, mas não até a China”.

A empresa, um consórcio entre três companhias portuguesas e duas parceiras da Alemanha e de Taiwan, está planejando inicialmente fabricar 25 mil quadros de bicicleta por ano, mas possui instalações com dimensões suficientes para dobrar essa produção. O custo de construção da fábrica, de cerca de 8,4 milhões de euros (US$ 10,2 milhões), foi coberto por subsídios europeus. Até agora, praticamente todos os quadros de carbono vendidos na Europa eram importados da Ásia, poucos eram fabricados em oficinas europeias de porte menor, afirmou Ozgunes.

No setor do ciclismo em Portugal, as empresas estão se apressando para aumentar a produção e esperam reduzir a dependência da Europa de importações da Ásia.

“Acho que esta pandemia deixou claro para todos que ser capaz de produzir na Europa é uma grande vantagem”, afirmou Pedro Araújo, diretor executivo e proprietário de uma das empresas, a Polisport.

Aos 19 anos, Araújo era um aficcionado em motocicletas, quando fundou sua companhia, em 1978, produzindo paralamas para motos off-road. A Polisport ainda fabrica paralamas, mas a maior parte do lucro de 52 milhões de euros que a empresa registrou no ano passado veio de acessórios para ciclismo como assentos infantis e capacetes.

A RTE, que opera a maior fabricante de bicicletas de Portugal, cujas instalações ocupam cerca de 40 mil metros quadrados, está se preparando para inaugurar outra fábrica, ao lado da primeira, para produzir bicicletas elétricas. Recentemente a empresa apresentou sua marca própria de e-bikes.

Mas a RTE também inaugurará uma outra fábrica, no próximo ano, na Polônia, para fornecer mercadorias para seu principal cliente, a gigante do varejo de artigos esportivos Decathlon, uma empresa francesa que tem lojas em todo o mundo.

Bruno Salgado, diretor executivo da RTE e herdeiro da família proprietária da empresa, afirmou que o frenesi no setor do ciclismo criou oportunidades para vários países aumentarem a produção. Sua fábrica em Portugal usa trabalhadores e maquinário automatizado para produzir cerca de 5,5 mil bicicletas por dia, mas seria capaz de elevar a produção para 7 mil unidades diárias para atender a demanda caso recebesse peças com mais rapidez, afirmou ele. Uma bicicleta pode ter mais de 100 componentes.

A Europa enfrenta “grandes problemas de fornecimento” que levarão de dois a três anos para serem resolvidos, deixando clientes em longas filas de espera, afirmou Salgado. Algumas peças encomendadas agora, afirmou ele, serão entregues somente no início de 2023. Os estoques secaram após meses de fechamentos causados pelos lockdowns, as remessas globais são retomadas lentamente e leva tempo para aumentar a produção em resposta à elevada demanda dos ciclistas.

Ainda assim, faz sentido investir numa fábrica na Polônia, afirmou ele, um país que tem unidades da Decathlon e é mais bem situado para atender a muitos mercados europeus. “Acho que não podemos relaxar só porque Portugal está produzindo muitas bicicletas agora”, afirmou Salgado, “porque todos os outros países estão aprendendo e alguns também estão mais bem posicionados geograficamente”.

Em meio à necessidade de mais funcionários, os fabricantes de bicicletas portugueses deram emprego a pessoas que haviam sido demitidas de outros setores, incluindo engenheiros e trabalhadores de linha de produção. A RTE contratou dezenas de ex-funcionários de uma fábrica de peças automotivas que fechou. Na Polisport, Araújo contratou vários engenheiros da Philips, a fabricante holandesa de eletrônicos, após a empresa transferir para a Ásia a fábrica que mantinha em Portugal. A Polisport, que uma década atrás tinha 100 funcionários, agora emprega mais de 650 trabalhadores.

Na Carbon Team, alguns dos funcionários vieram de uma fábrica de carpetes próxima, que fechou, parte do setor têxtil que já foi um tradicional pilar da economia portuguesa. “Se as pessoas sabem costurar”, afirmou Ozgunes, o diretor geral, “elas certamente possuem as habilidades manuais necessárias para colocar fibras de carbono dentro de um molde”.

Uma das ex-costureiras de carpetes, Pureza Silva, de 50 anos, bateu na porta da fábrica da Carbon Team depois de dois anos desempregada. “Quando você chegar à minha idade”, afirmou ela, “certamente não terá muitas oportunidades de encontrar um novo emprego como este, e estou gostando de fazer algo novo”./ Tradução de Augusto Calil

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