O show à parte de Bo Xilai

Expurgo de importante governador pode ser o início de mudanças pelas quais a China deve passar com urgência

Jonathan Fenby, do The New York Times

12 de abril de 2012 | 03h07

A poeira ainda não assentou sobre o dramático caso de Bo Xilai na China. Na realidade, talvez isso nunca aconteça, apesar de um informe de Pequim no qual o Partido Comunista anuncia a decisão de suspender Bo e a prisão de sua esposa. Faz 41 anos desde que a fulgurante figura da política chinesa, Lin Piao, considerado o sucessor de Mao, caiu em desgraça e morreu num acidente aéreo depois de uma aparente tentativa de golpe e ainda não sabemos exatamente o que aconteceu na época.

Mas entre os boatos de uma tentativa de golpe e as divisões do Politburo, além da morte em circunstâncias obscuras de um empresário britânico na antiga fortaleza de Bo, começam a aparecer importantes elementos que provavelmente terão um peso considerável para entender a evolução do último grande país governado pelo Partido Comunista.

Este ano assinalará o começo de uma significativa transição na liderança política da China, no congresso quinquenal do Partido Comunista (provavelmente em outubro) que se reunirá para escolher um novo Politburo. Pelo menos seis dos nove membros atuais do organismo supremo do partido, o Comitê Permanente, serão substituídos por terem atingido a idade limite para exercer o cargo. A demissão de Bo Xilai foi considerada uma bomba que subverteu o processo.

E isso não deixa de ser verdadeiro. Ambicionando tornar-se membro do Comitê Permanente, Bo, um expert em comunicações, tornara-se uma personalidade da política chinesa com propostas populistas de apelo para o grande público, de uma evolução do Estado de cima para baixo, de programas sociais, uma cruzada contra a criminalidade e a evocação dos antigos valores, obrigando as pessoas a cantar "hinos vermelhos". Bo mandou também erguer uma estátua de Mao de oito andares de altura na cidade universitária. Por isso, o drama de sua queda ganhou naturalmente as manchetes. Mas ao mesmo tempo produziu uma maior estabilidade no topo porque as principais facções cerraram fileiras.

Bo não se coadunava com a estratégia do consenso utilizada pelo líder do partido, que hoje está prestes a sair, Hu Jintao. Sua base de poder em Chongqing, com 32 milhões de habitantes, fazia com que ele parecesse uma versão política dos caudilhos regionais que governaram a China na década de 20. Era um político de enormes ambições que mais cedo ou mais tarde seria derrubado, e quando permitiu que a saga ainda misteriosa envolvendo um ex-chefe de polícia de Chongqing com a morte do empresário britânico escapasse do controle, seu destino foi selado.

A China está às voltas com uma grave crise ambiental e uma aguda escassez de água está se ampliando no norte do país. Pequim carece de uma política externa coerente. A corrupção grassa. As regulamentações e as normas de segurança são fracas. Há uma enorme falta de confiança nas instituições. A queda da taxa de natalidade e o aumento da longevidade indicam que a demografia passará por uma mudança ao longo desta década, de modo que os membros da República Popular poderão se tornar cada vez mais longevos antes de se tornar ricos. O materialismo derrubou ao mesmo tempo o comunismo e o confucionismo. Os monges e as freiras tibetanas estão se imolando para protestar contra o governo chinês e há constantes confrontos étnicos.

Todos reconhecem a necessidade de reequilibrar a excessiva dependência da economia dos investimentos em infraestrutura e no setor imobiliário, além das exportações, e de fazer com que ela se volte para o consumo interno. Os reformadores enfrentam uma formidável oposição. Wen e Li talvez falem de mudança, mas o Partido Comunista é mais poderoso do que o governo e o movimento outrora revolucionário tornou-se um agente da situação. As empresas estatais exercem monopólios ou oligopólios estreitamente ligados ao sistema político. O governo de consenso impede a adoção de medidas rigorosas.

A evolução desse processo determinará se a China encontrará um futuro por si mesma ou se tornará enredada nas consequências do seu sucesso. O resultado terá importantes implicações para o globo. Se a queda de Bo ajudou a abrir as portas da mudança, terá sido de certo modo benéfica. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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