O significado de Morsi para Israel

Irmandade Muçulmana e os nacionalistas religiosos que dominam a política israelense devem chegar a um acordo

THOMAS FRIEDMAN - THE NEW YORK TIMES - É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h05

A eleição de Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana à presidência do Egito, constituirá o começo do fim do tratado de paz de Camp David entre Israel e Egito? Não deveria. Na realidade, deveria ser o início de uma paz de fato entre os povos israelense e egípcio, em vez do que temos visto: uma paz fria, formal entre Israel e um faraó egípcio. Para que isso aconteça, ambas as partes terão de modificar comportamentos profundamente arraigados, e sem demora.

Em primeiro lugar, vamos acabar com os absurdos. O governo de Binyamin Netanyahu em Israel e vários analistas de direita não se cansam de repetir: "Nós avisamos vocês". É a ideia de que, de algum modo, o presidente Barack Obama poderia ter agido para "salvar" o presidente Hosni Mubarak do Egito, mas era ingênuo demais para fazer isso, com o inevitável resultado de que a Irmandade Muçulmana tomou o poder.

Desculpem, mas ingenuidade é achar que, porque era muito conveniente para Israel manter a paz com um ditador, Mubarak, e não com 80 milhões de egípcios, esse ditador - ou algum outro general - permaneceria e poderia permanecer no governo do Egito para sempre.

Entendo a ansiedade dos israelenses ao ver seu vizinho implodir. Mas também é interessante observar que um povo para o qual a história do Êxodo é tão fundamental - e há tanto tempo afirma que a paz só ocorrerá quando os árabes adotarem a democracia - não tenha acreditado que a história da libertação pudesse um dia ecoar no Egito, e agora proclame que o problema dos árabes é que eles estão abraçando a democracia. Tudo isso tem suas raízes.

"Nas suas relações com o poder, os judeus no exílio sempre preferiram as alianças verticais às horizontais", observa Leon Wieseltier, estudioso judeu, editor de The New Republic. "Eles sempre preferiram relacionar-se com o rei ou o bispo para não precisar se envolver com a população em geral, da qual desconfiavam profundamente - e muitas vezes tinham razões para desconfiar. Israel, enquanto Estado soberano, reproduziu a antiga tradição judaica da aliança vertical, só que desta vez com os Estados árabes. Os judeus acharam que, caso se relacionassem com Mubarak ou com o rei da Jordânia, teriam tudo aquilo de que precisavam. Mas o modelo de aliança vertical só faz sentido com sistemas políticos autoritários. Assim que o autoritarismo entra em colapso, e se inicia um processo de democratização, o modelo vertical se esgota e começa um período de horizontalidade no qual as opiniões do povo - neste caso, os árabes comuns - passam a ser importantes".

Consequentemente, Israel terá de fazer com que o homem da rua "não só o tema, como também o compreenda. Não será fácil, mas a tarefa não é impossível. De todo modo, a nostalgia pelos ditadores não é uma política ponderada".

Não sei se a atual liderança palestina poderá ser uma parceira para uma paz segura, no sistema de dois Estados com Israel, mas sei o seguinte: Israel precisa ser mais criativa para testar se isso será possível. Porque a alternativa é a solução de um só Estado, que será a morte de Israel e da democracia judaica, e mortal para a paz com um Egito democrático.

E quais são as obrigações de Morsi? Não tenham ilusões: a Irmandade Muçulmana tem em seu âmago posições que não são absolutamente liberais, e sim antipluralistas e antifeministas. Ela aspira a entrincheirar-se no poder e a explorar uma revolução que não começou por sua iniciativa.

Não acho que será fácil. O Irã é o Islã político no poder com o petróleo - para comprar e acabar com todas as pressões e as contradições. A Arábia Saudita é o Islã político no poder com o petróleo. O Egito será o Islã político no poder sem o petróleo.

O Egito não pode sobreviver sem o turismo e sem a ajuda e os investimentos estrangeiros para a criação de empregos, escolas e oportunidades para atender aos jovens egípcios que fizeram esta revolução e a muitos outros que a apoiaram passivamente. Além disso, os EUA não podem, seguramente não querem, e não deveriam selar com a Irmandade Muçulmana o mesmo acordo que fizeram com Mubarak - prenda e torture os jihadistas que nós queremos e poderão ter uma paz fria com Israel e nenhum constitucionalismo em pátria.

Como o analista Hussein Ibish escreveu no Now Lebanon, com a Irmandade Muçulmana no poder, agora é vital para os liberais do Egito e no exterior garantir que a nova constituição do Egito se baseie nas leis que restringem "os poderes do governo e garantem a proteção inviolável e invulnerável dos direitos dos indivíduos, das minorias e das mulheres".

Portanto, Morsi sofrerá enormes pressões para seguir o caminho da Turquia, e não o Taleban. Ele o seguirá? Ele deveria entender que tem em suas mãos uma carta poderosa - uma carta que os israelenses valorizam enormemente: a paz verdadeira com um Egito governado pela Irmandade Muçulmana, o que poderá significar a paz com o mundo muçulmano e o fim de fato do conflito. Evidentemente, essa é a principal aposta. Morsi acenaria a isso em determinadas condições? Não sei. Sei apenas o seguinte: a era Mubarak acabou - e com a Irmandade Muçulmana conservadora dominando o Egito, e os nacionalistas religiosos conservadores dominando a política israelense, ou ambos mudam o seu comportamento legitimando o acordo de Camp David para ambos os povos ou este se tornará gradativamente insustentável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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