O silêncio de Raúl Castro

A estética dos atos políticos em Cuba envelheceu com seus protagonistas. Antes, o público permanecia de pé na praça, gritando sem parar palavras de ordem. Agora, só são dados vivas quando a pausa do orador dá a deixa.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Uma ampla área ocupada por cadeiras permite que os membros dos primeiros escalões da classe dirigente se sentem durante o evento. Alguns assentos especialmente acolchoados destinam-se aos ocupantes dos mais altos escalões. Atrás deles, a multidão calada parece conhecer perfeitamente o que acontecerá no palanque.

Ela sabe que, em determinado momento, aparecerá algum locutor de televisão para apresentar o coro que entoará as notas do hino nacional. Depois, será feita a leitura dos nomes dos que mais se destacaram aos quais será entregue uma bandeira em sinal de reconhecimento ou um abraço apertado.

O ponto final é quase sempre dado pelo discurso do líder, que termina gritando palavras de ordem que sacudirão a multidão.

É assim que se repete - sem nenhuma modificação - o roteiro de cada evento público, de cada enorme comício organizado oficialmente. Podem ocorrer pequenas variações nesta dramaturgia enfadonha, como a de 26 de julho, na Província de Ciego de Ávila, durante a qual o presidente Raúl Castro, o esperado orador, sentou-se longe do microfone. Em seu lugar, tomou a palavra uma das vozes mais ortodoxas do governo cubano.

Ordem, disciplina e rigor, enfatizou em sua alocução José Ramón Machado Ventura, primeiro-vice-presidente do Conselho de Estado e de Ministros. E afirmou isso sem paixão excessiva, bem distante daquele tom altissonante que Fidel Castro empregava em seus quilométricos discursos.

Ao contrário do comandante-chefe, o funcionário não participou do assalto ao Quartel Moncada, há 58 anos. O que o torna o único orador que foi protagonista - durante dois anos consecutivos - do ato pela rebeldia nacional, sem ter participado da ação militar que este comemora.

A ascensão de Machado Ventura ao pódio revestia-se, assim, de simbolismo, pois até mesmo sua falta de brilho pessoal e sua retórica nada atraente são uma maneira de dizer que o tempo do carisma ficou para trás.

Falta de resultados. Já não se trata de hipnotizar a multidão para que realize determinada ação, mas de repreendê-la por aquilo que não conseguiu realizar. O triunfalismo das frases de outrora deixou o lugar a outras que têm a urgência do naufrágio, o cuidadoso apuro de quem suspeita do descalabro.

Talvez o que levou Raúl Castro a ceder a sua vez diante do microfone tenha sido a falta de novidades e a acentuada ausência de resultados. Três meses depois do 6.º Congresso do Partido Comunista, a aplicação dos acordos nele firmados caminha a um ritmo desesperadamente lento. A tibieza é indubitavelmente um sinal característico do mandato do irmão menor, desde que, no ano passado, 38.165 cubanos emigraram, cansados de esperar as reformas prometidas.

Muitos desejavam que nesta jornada o atual presidente falasse da entrada em funcionamento das flexibilizações previstas para a compra e venda de automóveis e casas. Além disso, ele deveria ter confirmado - ou desmentido - certas informações saídas de maneira fragmentada de trás do espesso cortinado governamental, como a possível demissão, nos próximos meses, de mais de 15 mil trabalhadores da área da educação.

Deveria ter esclarecido com suas próprias palavras, por exemplo, o que está havendo com o cabo de fibra ótica que chegou da Venezuela e já deveria estar operando, permitindo o acesso à internet em julho. Alguns, muito iludidos, apostavam até mesmo que ele informaria sobre uma revisão das leis de migração, camisa de força que impede o livre ingresso e saída dos cubanos de seu país. Falando no lugar de Raúl Castro, o apagado vice-presidente limitou-se a repetir que é preciso eliminar os preconceitos contra o setor não estatal da produção. Eufemismo com o qual se tenta substituir o conceito de "empresa privada" para definir os empreendimentos particulares.

Por sua vez, voltou a ganhar mais tempo, até janeiro de 2012, quando será realizada uma conferência nacional do Partido Comunista. Na ocasião, espera-se que seja debatida a própria estrutura de um partido que continua governando respaldando-se na declaração de ilegalidade de todas as outras forças políticas. Até lá, o país poderá ver partir outro contingente enorme de cidadãos, também cansados de aguardar.

Os atos políticos vão tomando a fisionomia de seus artífices, eles acabam se parecendo com aqueles que os organizam. Por isso, na manhã de 26 de julho, vimos o espetáculo da falta de criatividade e de frescor que caracteriza há muito tempo o sistema cubano e sua hierarquia. Duas horas depois, só podíamos lembrar o silêncio de Raúl Castro e a imagem de sua escolta pessoal, que o seguia em toda parte.

Como música de fundo, uma série de lugares comuns no discurso de Machado Ventura e os aplausos uniformes que explodiam nas pausas programadas. Lá em cima, o sol punha a única nota brincalhona no pouco brilho de uma jornada opaca. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.