O Sinai egípcio, base de jihadistas

Israel não faz muitos comentários sobre Mohamed Morsi, presidente islamista deposto no Egito, destituído do cargo pela população e pelo Exército. Mas está vigilante. Se um poder laico sob controle do Exército tranquiliza as autoridades israelenses, a Península do Sinai é seu pesadelo.

ANÁLISE: Gilles Lapouge, É CORRESPONDENTE EM PARIS, ANÁLISE: Gilles Lapouge, É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h06

O Sinai faz parte do Egito. Moisés recebeu os Dez Mandamentos de Deus nesSa paisagem tragicamente bela. É um triângulo de areia e pedras que se situa a leste do Rio Nilo e se estende até a fronteira sul de Israel. Com 400 mil habitantes, o Sinai há anos escapou do controle egípcio. É habitado por beduínos, nômades esquivos, que não obedecem a nenhum poder. Os islamistas há muito tempo fizeram dessa região deserta seu campo de manobra. Os beduínos lhes fornecem guerreiros hábeis e ferozes. Há alguns dias, os jihadistas intensificaram suas ações. Um copta (cristão egípcio) foi sequestrado e decapitado. Um padre foi morto. O carro de um egípcio do alto escalão foi metralhado e sua filha foi morta. Desde a queda de Morsi não há um dia sem incidente grave.

A região pouco a pouco escapou do controle do Exército. Os beduínos jihadistas atacam postos de controle militares e edifícios públicos. O perigo é grande porque no Sinai passa um gasoduto que abastece Jordânia e Israel. Ele já foi objeto de sabotagem e poderá sofrer um ataque violento dos jihadistas.

E o mais grave é que o Sinai está em contato com a Faixa de Gaza, em mãos da facção islamista Hamas. O temor é o de que uma aliança entre ativistas palestinos de Gaza e os beduínos do Sinai lance ataques contra Israel.

Para enfrentar tal eventualidade, Israel facilita a tarefa do Exército egípcio. Por exemplo, Jerusalém deve autorizar o Egito a aumentar o número de soldados e seus meios de transporte na região. E não é só. O Exército egípcio é financiado em 80% pelos americanos. Ora, a lei americana proíbe a concessão de ajuda a um regime nascido de um golpe de Estado militar. E temos de admitir que houve realmente um golpe de Estado no Egito.

Assim, o Exército egípcio, que já não é tão brilhante, corre o risco de não receber os bilhões de dólares que os Estados Unidos enviam a cada ano. Por isso Israel solicita com insistência que Washington encontre uma artimanha jurídica para escapar da proibição e continue a apoiar o Exército do Egito. Na falta de um acordo, o Exército egípcio sofrerá uma paralisia. E o Sinai poderá se tornar, no ponto de transição entre África e Ásia, uma enorme base para a guerra santa e o terrorismo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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