Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

O sofrimento vivido pelos doentes mentais na Venezuela

Crise econômica no território venezuelano destruiu o sistema de saúde do país, deixando diversos hospitais sem medicamentos e materiais básicos; hoje, milhares de pessoas com problemas psiquiátricos veem sua situação piorar em razão da falta de remédios e tratamento

Nicholas Casey / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2016 | 16h09

MARACAY, VENEZUELA - As vozes que atormentavam Accel Simeone começaram a ficar cada vez mais altas. Com os últimos suprimentos de antipsicóticos do país chegando ao fim, o rapaz já estava há semanas sem o medicamento que controla sua esquizofrenia. A realidade ia se desintegrando a cada dia. E agora vozes em sua cabeça exigiam que matasse o irmão.

"Eu não queria", relembra Simeone, 25 anos. Ele pegou uma ferramenta elétrica que havia na garagem da casa da família e a ligou. Porém, para poupar o irmão, atacou a si mesmo, cortando parte do próprio braço, até que o pai correu e arrancou o aparelho de suas mãos ensanguentadas.

O colapso econômico venezuelano já dizimou o sistema de saúde do país, deixando hospitais sem antibióticos, cirurgiões sem luvas e causando a morte de enfermos. Agora, milhares de doentes mentais - muitos dos quais viviam uma vida relativamente normal graças à medicação -, entram em desespero e afundam na psicose porque não há no país praticamente nenhum remédio psiquiátrico. Com isso, parentes e médicos se veem impotentes, sem ter como ajudá-los, explicam os especialistas.

De acordo com os profissionais, as instituições mentais liberaram um determinado número de enfermos pois não têm mais condições de tratá-los. E os que ficaram sofrem nessas instituições decadentes porque mal têm o que comer. Médicos e enfermeiros temem ataques violentos e afirmam não terem outra escolha a não ser amarrá-los a cadeiras, trancá-los ou deixá-los nus para impedir que se suicidem.

No Hospital Psiquiátrico El Pampero, em Barquisimeto, as cenas são um verdadeiro pesadelo. A escassez de alimentos transformou um homem idoso e esquizofrênico em um verdadeiro esqueleto ambulante. Um homem com epilepsia sofreu uma série de convulsões pela falta de medicação, enquanto outro paciente se viu amarrado à cama pelas canelas. Uma senhora, também sem remédios para controlar a esquizofrenia, se arrastava pelo chão, cruzando com outro paciente tão faminto que continuou a morder a fruta que comia e caíra na poça de água suja.

A maioria dos pacientes do país está nas mãos das famílias como a de Simeone, que precisam escolher entre trabalhar e cuidar do doente. É uma vida de busca por remédios cada vez mais raros e o medo constante e desesperador de que o parente se machuque ou fira alguém em um momento de distração.

A Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo, já chegou a produzir praticamente todos os remédios que consumia. No início dos anos 2000, o então presidente Hugo Chávez começou uma nacionalização abrangente dos laboratórios locais com o intuito de produzir remédios mais baratos, com os estrangeiros - como Pfizer e Eli Lilly - complementando as cotas de importação.

Com isso, os preços do petróleo despencaram. O governo começou a ver suas divisas diminuírem, o que o deixou sem condições de importar matérias-primas para as fábricas que forneciam para os hospitais. As multinacionais, por sua vez, pararam de fornecer em razão das dívidas astronômicas acumuladas, as quais as autoridades não tinham condições de cumprir.

Assim, cerca de 85% das drogas psiquiátricas estão em falta hoje na Venezuela, segundo o principal grupo de comércio farmacêutico do país. "Até o mais básico já acabou. A gente se sente impotente", lamenta Robert Lespinasse, ex-presidente da Sociedade Venezuelana de Psiquiatria.

No Hospital El Pampero, os gritos de Emiliana Rodriguez, outra esquizofrênica, ecoam. Ela recebe pouca comida e o remédio para o glaucoma está em falta, deixando-a praticamente cega. "Não estou louca, só estou com fome", diz ela.

Esperança. Para Simeone, a casinha de alvenaria da família, na cidade de Maracay, continua sendo um refúgio, mesmo depois de ter se mutilado. Logo depois do incidente, um psiquiatra receitou um remédio diferente, que ainda poderia ser encontrado, pelo menos naquele mês. Tudo então ficaria em paz. Os Simeone realmente acreditavam em Chávez e em sua revolução de inspiração socialista.

Mario, o pai, é filho de um refugiado que deixou a Itália durante a 2ª Guerra e se casou na Venezuela, mas o fato é que o trabalho duro de seus pais pouco fez para lhe abrir as perspectivas. Quando se casou com Evelin, no final dos anos 1980, foi morar em uma casa pequena, sem cama ou mesa.

Quando Chávez assumiu o poder, em 1999, prometeu assistência médica, educação e empregos, redirecionando o país e sua riqueza petrolífera para os mais carentes. Os Simeone se tornaram seus seguidores leais.

Evelin concluiu o curso de Direito, gratuito, em uma universidade pública, e começou a advogar, especializando-se em processos civis e testamentos. O marido, funileiro curioso, abriu uma mecânica para consertar carros. Em 2005, os dois compraram uma casa nova e a encheram de utensílios domésticos. "Nossa geladeira vivia cheia", relembra ela.

Entretanto, havia algo errado com Accel. O jovem, sempre gentil e tranquilo, acabara de completar 18 anos e passara a se sentir ansioso, com a sensação constante de que estava sendo perseguido. Vozes lhe diziam que era homossexual e que queriam matá-lo para ficar com seu dinheiro.

Aos 19, Accel atacou o pai com um pedaço de pau. Um psiquiatra de Caracas reconheceu imediatamente os sintomas da esquizofrenia e lhe receitou vários remédios, todos fáceis de obter na época. "A medicação era a única solução", ressalta Evelin.

Dificuldades. Chávez, que sofria de câncer, morreu em 2013, deixando um sucessor pouco conhecido: Nicolás Maduro. No ano seguinte, os preços do petróleo começaram a cair vertiginosamente e o país se viu sem ter como pagar por produtos, serviços e importados.

As filas para comprar comida se tornaram assustadoramente comuns no bairro da família Simeone. Mesmo os ingredientes mais básicos, como farinha de milho e arroz, passaram a ser difíceis de encontrar. Em 2015, a inflação bateu nos três dígitos, acabando com a poupança da família e deixando Evelin e Mario sem clientes.

A escassez de remédios veio com força. Evelin passava várias horas por semana, de farmácia em farmácia, em busca do neuroléptico olanzapina, mas sem muita sorte. Em abril, ela começou a reduzir as doses para fazer os remédios durarem mais. "Percebi, desesperada, que não ia demorar muito para os dois ficarem sem ter o que tomar", conta.

A mãe, que quase não conseguia trabalhar para cuidar dos dois filhos, teve de desistir da carreira. Mario conserta carros para pagar pela medicação dos dois meninos, quando consegue, e lamenta a situação em que a família se encontra. "Esta é uma terra de fanáticos. Se você realmente ama um país, como pode deixá-lo sem comida, sem trabalho e sem remédios?", questiona.

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