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O sonhador Moon Jae-in

Novo presidente da Coreia do Sul defende diálogo com Pyongyang para evitar a guerra 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2017 | 05h00

O novo presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, do Partido Democrata, assumiu o cargo em Seul. Ele sucede a presidente Park Geun-hye, derrubada de seu “trono” pelas imensas manifestações populares que protestaram contra a corrupção, ou melhor dizendo, contra a corrupção da conselheira pessoal da sra. Park, a escandalosa Chol Soon-sil, cuja influência sobre a presidente poderia ser comparada àquela que, ao final do império russo, Rasputin exercia sobre o czar e, especialmente, sobre a czarina.

O presidente Moon é democrata e até mesmo militante dos “direitos humanos”. Um tipo que não se encontra com frequência nos círculos dirigentes de Seul, pelo menos não nos últimos dez anos. Ele pertence a uma espécie rara e preciosa, que corre risco de extinção e, portanto, precisa ser protegida.

Moon foi um dos pais do movimento democrático, nos anos 70 e 80. Acabou preso depois de um protesto contra o pai da sra. Park, o ditador Park Chung-hee. Isso mostra que os conservadores usaram artilharia pesada para barrar a ascensão desse democrata ao poder. Mas o povo aguentou firme e o elegeu.

Tachado pelos conservadores, evidentemente, como um esquerdista, Moon não teve dificuldade para provar que se tratava de uma calúnia. Católico e de origem norte-coreana, ele é simplesmente um democrata. Não precisamos passar por todo o seu programa de governo, basta ver uma decisão-chave: disse que está determinado a visitar Pyongyang, a capital inimiga, para ver essa Coreia do Norte pintada aos olhos da Coreia do Sul e de boa parte do mundo como presa de um ditador pervertido, incompetente e sanguinário.

Essa imagem universalmente compartilhada é verdadeira? Sem dúvida, o regime norte-coreano é rígido, mas testemunhos recentes e mais sutis dão certos matizes à imagem do tirano maluco. Não seria melhor ir a Pyongyang para ver a Coreia do Norte real e não seu fantasma? Essa é um pouco a ideia de Moon. “Precisamos reconhecer Kim Jong-un (líder norte-coreano) como governante e parceiro de diálogo. A Coreia do Sul deve se aproximar do povo norte-coreano para um dia alcançarmos uma reunificação pacífica.” Parece um programa um pouco sonhador. Mas vale a pena ver pessoalmente o que acontece nesse país onde o mutismo e o bizarro são doutrina de Estado. 

Passemos agora aos temas sensíveis e, mais precisamente, às relações entre Washington e Seul. Justificadamente preocupados e furiosos com a obstinação da Coreia do Norte em desenvolver armas nucleares, os EUA impuseram um feroz programa de sanções e reagiram às afrontas de Pyongyang com o envio de um porta-aviões para a costa coreana, provocando a ira da China e da Rússia.

Em breve, poderemos mensurar a força das medidas americanas. Mas vale notar que, estranhamente, Washington enviou felicitações ao sr. Moon e expressou sua vontade de trabalhar com ele. Algo ainda mais surpreendente: no dia 8, em Oslo, houve um encontro entre diplomatas americanos e norte-coreanos. E mais surpreendente ainda: dias antes, Donald Trump tinha dito que, em relação à Coreia do Norte, “todas as opções estavam na mesa”, chegando a acrescentar que seria “uma honra” conhecer Kim Jong-un. 

É bem verdade que Moon teve o cuidado de dizer que não tomaria nenhuma iniciativa antes de conversar com Washington e afirmou que os americanos não têm qualquer razão para temer a retomada do diálogo entre as Coreias. As coisas estão neste ponto. E, em certos círculos diplomáticos, correm rumores de que, em breve, pode ocorrer um encontro entre Moon e Trump. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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