O 'sonho chinês' de Xi Jinping

O rejuvenescimento que o novo líder defende deve ter como base o estado de direito

É COLUNISTA, FRED, HIATT, THE WASHINGTON POST, É COLUNISTA, FRED, HIATT, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2013 | 02h01

Quando aceitou a designação do Partido Comunista para ser o presidente e líder militar supremo da China, em março, Xi Jinping prometeu "realizar o sonho chinês de grande rejuvenescimento do país".

O discurso de Xi ao Congresso Nacional do Povo ganhou aplausos da imprensa. "Sua voz firme, mas rica, seu olhar franco, mas resoluto, revelaram um poder de revigorar as pessoas", noticiou o jornal Diário do Povo da China.

O discurso deixou analistas se perguntando que tipo de rejuvenescimento - também traduzido como "revival" ou "renascimento" - o novo líder tinha em mente. O presidente americano, Barack Obama, certamente estará procurando pistas quando se encontrar com Xi nesta semana na Califórnia.

Xi terá em mente um "sonho chinês" de prosperidade, como o "sonho americano" é geralmente interpretado - uma promessa de continuar o progresso histórico das três últimas décadas tirando pessoas da pobreza para a classe média? Terá ele em mente uma campanha contra a corrupção generalizada e a crescente desigualdade de riqueza que enfurece muitos chineses? Ou terá como foco aumentar a influência e o perfil da China além de suas fronteiras? Ele sugeriu as três possibilidades.

Segundo a revista britânica The Economist, muitos intelectuais influentes assinaram uma petição pedindo pressa no rejuvenescimento da China com base no estado de direito - colocando a Constituição acima do regime arbitrário de partido único.

Uma virada nessa direção poderia ajudar nos três objetivos de "renascimento". Ditadores, de Stalin a Park Chung-hee, da Coreia do Sul, conseguiram tirar suas nações da pobreza abjeta para uma industrialização de nível médio, mas a continuação do crescimento - a fuga da "armadilha da renda média" que preocupa tantas autoridades chinesas - quase sempre vem acompanhada de uma liberalização política.

Um Judiciário independente domaria a corrupção com maior eficácia do que expurgos periódicos e campanhas disciplinares do Partido Comunista.

Amigos. A China poderia ganhar amigos no exterior e empurrar menos vizinhos para o abrigo da aliança americana com o respeito às normas internacionais, mais do que pela intimidação.

Infelizmente, por enquanto há poucas evidências de que Xi esteja tentado a seguir na direção do constitucionalismo. Apesar de ter mencionado, como líderes passados, a democracia como um objetivo final, ele também disse: "O sonho chinês é um ideal. Os comunistas devem ter um ideal mais alto, e esse é o comunismo". Quando o Diário do Povo postou uma pesquisa online sobre o "sonho chinês", cerca de 80% dos participantes disseram que não apoiam um regime de partido único - e a pesquisa foi rapidamente retirada da rede.

Xi ainda está se instalando, mas ele próprio pode não estar inteiramente seguro sobre a direção a tomar. Suas escolhas serão determinadas principalmente por fatores internos, mas as percepções e respostas globais também pesarão. Isso torna ainda mais importante que Obama explique por que relações sino-americanas mutuamente benéficas seriam favorecidas pelo respeito chinês ao estado de direito.

Obama devia deixar claro, por exemplo, que quando autoridades chinesas prometem a suas contrapartes americanas que o advogado de direitos humanos Chen Guangcheng pode emigrar sem consequências adversas para seus parentes, e depois esses parentes são presos, espancados e intimidados, a confiança americana fica abalada.

Quando um antigo morador dos EUA, o defensor da democracia Wang Bingzhang, é atraído para uma reunião na fronteira entre Vietnã e China, raptado por agentes de segurança chineses, e atirado numa solitária em uma prisão remota, isso também abala as percepções (transparência total: tenho um interesse pessoal no caso de Wang porque fiquei amigo de sua filha, Ti-Anna Wang, e escrevi um romance juvenil inspirado em parte na sua história).

E quando um crítico literário como o Nobel da Paz Liu Xiaobo está preso pela defesa pacífica da liberdade de expressão - e sua mulher está detida em prisão domiciliar sem um processo formal - os estrangeiros têm mesmo que duvidar da confiança que as autoridades chinesas alegam sentir por seu modelo de governança e desenvolvimento.

Eis mais uma coisa que Obama poderia dizer: nenhum país vai ganhar respeito por grandeza se viver com medo de cidadãos como Chen, Wang e Liu. E seu "rejuvenescimento" provavelmente não será mais do que um slogan a menos que se construa sobre o princípio que os três defendiam - o princípio do estado de direito. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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