O sucesso que fracassou

EUA ignoram Salam Fayyad, negociador palestino mais progressista, e acordo de paz fica cada vez mais distante

ROGER COHEN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2013 | 02h04

O pensador palestino mais progressista e inovador a respeito de um acordo de paz no Oriente Médio foi isolado nos últimos anos. Solapado por Israel, enfraquecido pelo sectarismo de seu próprio povo, incapaz de se reunir uma vez que fosse com o presidente Barack Obama, esse dinâmico líder palestino está chegando ao seu limite.

A história de Salam Fayyad, primeiro-ministro da enfraquecida Autoridade Palestina (AP), na Cisjordânia, é um caso de uma oportunidade desperdiçada. Obama, que preferiu não se encontrar com Fayyad em seu primeiro mandato, poderá fazê-lo durante sua visita à região no próximo mês. O que o presidente ouvirá é como as coisas ficam ruins quando os Estados Unidos olham para o outro lado.

Formado no Texas, mais interessado pelo futuro que atormentado pelo passado, um ex-funcionário do Fundo Monetário Internacional determinado a combater a corrupção e estabelecer a segurança, mais um realizador do que um sonhador, Fayyad era um novo tipo de líder palestino. Um pragmático contra a violência com uma genuína disposição para um acordo territorial.

Para Israel, ele era um enigma: um parceiro em potencial, mas também o político do inferno. Pois, se o fayyadismo era a nova face razoável da Palestina, por que a Palestina não conseguiu ser criada? No mês passado, em Ramallah, conversei com Fayyad durante algumas horas. Havia negociado a travessia de Israel para a Cisjordânia, cruzando o muro para a confusão na qual os israelenses preferem não pensar, passando por professores em greve que não haviam sido pagos porque a AP está sem dinheiro.

Encontrei o primeiro-ministro bem vestido e, como sempre, de mau humor. Seu programa de preparação para cidadania, que ganhou o selo de aprovação do Banco Mundial antes de sua conclusão, em agosto de 2011, foi um sucesso que fracassou. Não deu em nada. "Tudo andou de maneira negativa", disse Fayyad. "Na prática, Israel nunca me apoiou. Na verdade, foi bastante hostil. O regime de ocupação está mais entranhado, sem nenhum sinal de que esteja começando a dispensar o controle de nossas vidas."

"Há mais assentamentos, mais violência de colonos, mais intrusão em todos os aspectos da vida palestina e há ações toleradas que são absolutamente inaceitáveis, como tornar sistematicamente inóspito o Vale do Jordão, cerca de um quarto de nossa massa territorial", afirmou Fayyad. "Estive recentemente numa tenda com pessoas dali - a maioria dos palestinos no vale é nômade - e elas estavam a metros de distância de um encanamento central. Elas não só não tinham acesso à água corrente como até as cisternas eram sujeitas a confiscos pelo Exército israelense."

Enquanto conversávamos, três palestinos desarmados foram mortos na Cisjordânia em circunstâncias obscuras pelos israelenses - dois rapazes, de 15 e 16 anos, e uma mulher de 22, que marchavam num câmpus universitário ao sul de Belém. "O tratamento de protestos não violentos tem sido muito violento", disse Fayyad.

Nenhum israelense foi morto na Cisjordânia em 2012. Sob o controle de Fayyad, o treinamento das forças de segurança palestinas, apoiado pelos EUA, com a cooperação de Israel, trouxe as armas para o controle estatal - pré-requisito para a constituição de um Estado.

Israel, em geral, desfruta de uma calma que permitiu que as questões de emprego e melhores salários se tornassem as principais preocupações dos israelenses, enquanto a questão dos palestinos se tornava periférica. A economia da Cisjordânia cresceu em circunstâncias difíceis.

Apesar de ter falado pela primeira vez em dois Estados para dois povos em 2009, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, pareceu enviar a seguinte mensagem a Fayyad: bom comportamento traz mais punições. "As pessoas dizem que Netanyahu permanece no poder pelo bem do poder", disse Shlomo Avineri, cientista político israelense. "Não concordo. Ele tem uma agenda central. Não vai ceder uma polegada de Eretz Israel. Ele permanece no poder para isso. O discurso sobre dois Estados foi uma tática que ganhou três anos de paz e tranquilidade. Ele disse isso e não fez nada a respeito." Eretz Israel é um termo bíblico que se refere à área entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão, abarcando toda a Cisjordânia.

"O mundo não acredita que estamos sendo sérios sobre dois Estados em razão da política de assentamentos. Se estamos construindo por todos os lugares, onde será o Estado palestino?", questionou um membro desiludido do governo de Netanyahu.

Fayyad vê uma tentativa de solapar a AP. "Ainda acredito que a Autoridade Palestina seja um elemento-chave no esforço para resolver o conflito", disse. "Alguém precisa me explicar como algo visto como central para construir a paz é abandonado ao fracasso por três anos, à beira da falência, e se faz de tudo para corroer sua viabilidade política?", reclama Fayyad.

"Sofremos uma derrota doutrinária. Não cumprimos o prometido. Eu represento o endereço do fracasso. Nosso povo pergunta se a AP pode cumprir o que promete. Enquanto isso, o Hamas ganha reconhecimento e é fortalecido. Esse é o resultado da nulidade. Não é só que andamos tendo um mau dia", afirmou.

Parte dessa "nulidade" veio de Washington e de Obama. "Após a fracassada tentativa de barrar a expansão dos assentamentos israelenses, o governo desistiu", disse Fayyad. "Após o primeiro ano no cargo, a diplomacia americana mudou para a manutenção - fazer o processo andar, em vez de examinar os problemas."

Portanto, tem havido uma deriva negativa, em grande parte pacífica, mas cada vez mais inquieta. "O risco é de uma recaída num ciclo de violência", disse Fayyad. "Quando você continua levando pancadas na cabeça, sabe que um dia cairá a última gota d'água."

Ele identificou alguns problemas: expansão dos assentamentos; incursões militares israelenses em áreas controladas pelos palestinos; incapacidade de estender a presença de segurança palestina na Cisjordânia; o processo "complexo e caprichoso" de ganhar acesso aos mais de 60% da Cisjordânia conhecidos como "Área C" e sob controle militar israelense direto; o uso israelense da arrecadação fiscal como torneira que pode ser aberta e fechada para prejudicar a AP; a falta de acesso à tecnologia 3G e o controle israelense das frequências; e a dificuldade de exportar para Israel. Todos esses fatores juntos, segundo ele, tornam a governança "impossível".

Depois, é claro, há a questão interna palestina, agora referida como um problema de "reconciliação". O movimento nacional palestino é enfraquecido por sua divisão. O Hamas governa na Faixa de Gaza. O presidente Mahmoud Abbas e a Fatah, na Cisjordânia.

Os palestinos ainda não decidiram se é uma a guerra entre dois nacionalismos com pretensões rivais à mesma terra - um conflito que, em teoria, poderia ser resolvido por um acordo, como Fayyad acredita - ou se é uma guerra anticolonial, comparável ao conflito argelino, cujo resultado final teria de ser a expulsão dos judeus e a destruição do Estado de Israel, como o Hamas defende.

A abordagem absolutista - a não aceitação das linhas de 1967 com trocas de terras e a rejeição da resolução de 1947 da ONU para criar o moderno Estado de Israel - levou à derrota e à humilhação palestina. Todas as evidências são de que ela continuará a fazê-lo.

As conversas sobre reconciliação, até agora, só produziram acordos inúteis. "Essa rivalidade e a instabilidade são muito destrutivas", disse Fayyad. "O requisito mais básico para esse plano decolar é, primeiro, segurança. Se todos estivermos comprometidos com a não violência, isso será básico para nossos interesses. Precisamos formalizar a questão: o caminho da não violência para a liberdade. Se pudermos nos unificar sob essa bandeira, ela seria uma base adequada. Afinal, boa parte da coalizão atual em Israel não concorda com uma solução de dois Estados."

O Hamas, de acordo com o primeiro-ministro, é um filho da Irmandade Muçulmana, com a qual os EUA agora "se relacionam de maneira aberta". O outro ingrediente fundamental para o movimento palestino é a realização de eleições neste ano, segundo Fayyad.

"As eleições são cruciais. A coisa que eu mais lamento é a falta de um Legislativo operante. Precisamos reconstruir nosso sistema político democraticamente com eleições em Gaza e na Cisjordânia. A democracia não pode se realizar com uma única eleição. Creio que Abbas deva emitir um decreto convocando eleições e, se o Hamas disser não, que seja."

O primeiro-ministro seguiu: "Não tenho nenhuma prerrogativa. Fiz o que pude. Estou completamente satisfeito com isso e em paz comigo. Não quero ser fonte de problemas para ninguém. Simplesmente não é aceitável continuar fazendo isso enquanto se prega a democracia. Um Legislativo operante pode lhe dar sinal verde. O fato de ele não existir não significa que não deva haver uma restrição autoimposta."

Fayyad chegou ao limite. Já o fayyadismo é outra questão. "As pessoas voltarão a essa história", disse. "Isso tem relação com uma nova maneira de pensar. E as ideias têm um poder duradouro." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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