Zohra Bensemra/Reuters
Zohra Bensemra/Reuters

O super-herói que pretende salvar o Senegal do plástico 

Modou Fall percorre ruas com roupa feita de sacolas para conscientizar moradores sobre prejuízos ambientais

Mady Camara e Ruth MaClean / The New York Times , O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 05h00

Enquanto os maratonistas se alongavam e iam para seus lugares na linha de partida, um homem se destacava por sua vestimenta: sacolas de plástico da cabeça aos pés. Uma capa multicolorida feita de sacolas plásticas até o chão. E um chapéu feito de óculos de sol de plástico cobria sua cabeça.

Mas este homem, Modou Fall, não estava competindo na maratona, realizada todo ano em novembro, em Dacar, capital do Senegal. Ele estava participando de um tipo diferente de corrida: salvar o país da África Ocidental do flagelo dos resíduos plásticos que entopem seus canais, estragam suas praias de areia clara e vagam pelas ruas.

Com a maratona atraindo grandes multidões e a imprensa, ele não podia deixar passar a chance de promover sua causa. Acenando com a bandeira senegalesa e carregando um alto-falante com o qual entoava canções que falavam dos danos causados pelo plástico, Fall se movimentava entre os corredores com sua vestimenta de plástico enquanto a corrida começava.

Aqueles que disputavam a corrida e o paravam para pedir selfies caíram em sua engenhosa armadilha: ele aproveitava todas as oportunidades para dar às pessoas um sermão gentil sobre os problemas ambientais.

Depois que o último grupo de corredores deixou a área de largada, Fall e sua equipe de voluntários começaram a recolher as garrafas de água vazias e as sacolas plásticas deixadas para trás.

Para os corredores e turistas que foram a Dacar por conta da maratona, este talvez tenha sido seu primeiro encontro com Fall. Mas, para os moradores , ele é conhecido como o “Homem de Plástico”. Fall costuma ser visto dançando pelas ruas usando uma fantasia produzida por ele mesmo e em constante evolução, feita de sacolas coletadas por toda a cidade. Presa em seu peito, uma placa diz: “Diga não às sacolas plásticas”.

'Protetor'

Seu traje é inspirado no “Kankurang” – um tradicional e impressionante personagem da cultura senegalesa, que vive em florestas e se veste com um manto de grama trançada. O Kankurang é considerado um protetor contra os maus espíritos e é responsável por ensinar os valores compartilhados pela comunidade. “Eu ajo como Kankurang”, disse Fall, em entrevista recente. “Sou um educador, defensor e protetor do meio ambiente.”

Embora os resíduos plásticos representem um grave problema ambiental em todo o mundo, estudos recentes apontaram que o Senegal, apesar de seu tamanho relativamente pequeno, está entre os países que mais poluem os oceanos com plástico. Isso ocorre em parte porque o Senegal tem dificuldade em gerenciar seus resíduos, assim como muitos países pobres, e tem uma grande população vivendo na costa.

Em um esforço para reduzir sua parcela de poluição, o governo senegalês implementou a proibição de alguns produtos plásticos em 2020, mas o país tem tido dificuldades em cumpri-la. O Senegal, com uma população de 17 milhões, deverá produzir mais de 700 mil toneladas métricas de resíduos plásticos mal administrados até 2025, se nada for feito – em comparação com as 337 mil toneladas métricas dos EUA.

Fall, um ex-soldado de 48 anos, alto e carismático, percebeu os efeitos nocivos do plástico pela primeira vez em 1998, durante o serviço militar. Ele estava vivendo na zona rural do leste do Senegal, onde viu as vacas adoecerem após consumirem fragmentos de sacolas plásticas que cobriam a paisagem árida.

Após o serviço militar, Fall vendeu camisetas e boias salva-vidas no movimentado mercado de Sandaga, em Dacar. As sacolas plásticas eram baratas e abundantes, por isso, eram usadas indiscriminadamente. Durante meses, ele tentou fazer com que os outros vendedores entendessem a ameaça do plástico. Mas ninguém lhe deu ouvidos.

Um dia, ele decidiu tentar ensinar dando o exemplo e limpou o mercado sozinho. “Demorei 13 dias, mas consegui”, disse. Depois de um tempo, o plástico reapareceu, mas ele conseguiu fazer alguns ali repensarem seu uso.

Obsessão

Então, parar o fluxo crescente de plástico tornou-se a obsessão de Fall. Em 2006, ele usou tudo o que tinha poupado durante a vida, pouco mais de US$ 500, para fundar sua associação: a Senegal Propre (Senegal Limpo).

Ele plantou dezenas de árvores e organizou campanhas de limpeza nos bairros de Dacar. Com os resíduos plásticos recolhidos, a Senegal Propre fez tijolos, paralelepípedos e bancos para uso público. Pneus velhos tornaram-se sofás que foram vendidos por US$ 430 cada – dinheiro que foi destinado a mais iniciativas de proteção ao meio ambiente. Outros ambulantes começaram a entender a importância do que estava sendo feito e passaram a participar das iniciativas. 

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