O superestimado declínio dos Estados Unidos

Americanos perderam a confiança em várias áreas, mas ainda acham que o país é o melhor

JOSEPH S., NYE, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2014 | 02h01

Com a proximidade das eleições para o Congresso americano, ressurgem com vigor várias questões envolvendo a saúde das instituições políticas dos Estados Unidos e o futuro de sua liderança global, e alguns citam a paralisia política causada pela radicalização partidária como evidência do declínio americano. Mas a situação será realmente tão ruim?

Segundo a cientista política Sarah Binder, a divisão ideológica entre os dois principais partidos políticos dos EUA não era tão grande como agora desde fins do século 19. Mas, apesar da paralisia atual, o 111.º Congresso conseguiu aprovar um importante estímulo fiscal, a reforma do sistema de saúde, uma regulamentação do sistema financeiro, um tratado sobre controle de armas, e a revisão da política sobre homossexualidade nos meios militares. Evidentemente, o sistema político americano não deve ser subestimado (em especial se o impasse partidário for cíclico).

Mas o Congresso atual está marcado por uma baixa capacidade legislativa. Embora a consistência ideológica tenha mais do que dobrado nas duas últimas décadas, de 10% para 21% do público, a maioria dos americanos não tem opiniões uniformemente conservadoras ou liberais, e quer que seus representantes se encontrem no meio do caminho. Mas os partidos políticos se tornaram mais consistentemente ideológicos desde os anos 70.

Este não é um problema novo para os Estados Unidos, cuja Constituição tem como base a visão liberal do século 18 de que o poder é mais bem controlado pela fragmentação e presidente e Congresso são obrigados a competir pelo controle de áreas como política externa. Em outras palavras, o governo americano foi programado para ser ineficiente para assegurar que não pudesse ameaçar facilmente a liberdade de seus cidadãos.

Confiança. Essa ineficiência provavelmente contribuiu para o declínio da confiança nas instituições americanas. Hoje, menos de um quinto do público acredita que o governo federal faz a coisa certa na maioria das vezes, em comparação com três quartos em 1964. Evidentemente, esses números aumentaram ocasionalmente nesse período, como após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Mas o declínio geral é considerável.

O governo federal não está só. Nas últimas décadas, a confiança pública em muitas instituições influentes despencou. De 1964 a 1997, a proporção de americanos que confiava nas universidades caiu de 61% para 30%, enquanto a confiança em grandes empresas foi de 55% a 21%. A confiança em instituições médicas desceu de 73% a 29%, e no jornalismo de 29% a 14%. Na última década, a confiança em instituições educacionais e nos militares se recuperou, mas a confiança em Wall Street e em grandes corporações continuou a cair.

Mas esses números nitidamente alarmantes podem ser enganosos. O fato é que 82% dos americanos ainda consideram os EUA como o melhor lugar do mundo para se viver, e 90% gostam de seu sistema de governo democrático. Os americanos podem não estar inteiramente satisfeitos com seus líderes, mas o país com certeza não está à beira de uma revolução estilo Primavera Árabe.

Além disso, embora os partidos políticos tenham ficado mais polarizados nas últimas décadas, isso ocorreu depois dos anos 50 e início dos 60 quando a saída da Grande Depressão e a vitória na 2.ª Guerra alimentaram uma confiança particularmente alta em instituições americanas. Aliás, o declínio mais acentuado na confiança pública no governo ocorreu no fim dos anos 60 e início dos 70.

Além disso, a confiança declinante no governo não foi acompanhada por mudanças significativas no comportamento dos cidadãos. Por exemplo, o Internal Revenue Service (a Receita Federal americana) está entre as instituições do governo que inspiram menos confiança; mas não tem havido um grande aumento na evasão fiscal. Em termos do controle da corrupção, os EUA ainda se situam no 90.º lugar. E embora as taxas de comparecimento eleitoral em eleições presidenciais tenham caído de 62% para 50% na segunda metade do século 20, elas se estabilizaram em 2000, e subiram para 58% em 2012.

A perda de confiança que os americanos expressaram pode estar radicada numa mudança mais profunda das atitudes das pessoas na direção do individualismo, que acarretou uma menor deferência às autoridades. Aliás, padrões similares são característicos de maioria das sociedades pós-modernas.

Esta mudança social provavelmente não influenciará a eficácia das instituições americanas tanto quanto se poderia pensar em razão do sistema federal descentralizado dos EUA. Na verdade, o impasse na capital nacional é normalmente acompanhado pela cooperação política e inovação nos níveis municipal e estadual, levando os cidadãos a verem os governos locais e estaduais, e também muitas agências governamentais, de maneira muito mais favorável do que veem o governo federal.

Esta abordagem da governança teve um profundo impacto na mentalidade do povo americano. Um estudo de 2002 indica que três quartos dos americanos sentem-se conectados a suas comunidades e consideram sua qualidade de vida excelente ou boa, e quase a metade dos adultos participa num grupo ou atividade cívica.

Lição. É uma boa nova para os Estados Unidos. Mas não significa que os líderes americanos podem continuar a ignorar as imperfeições do sistema político, como as "cadeiras garantidas" para favorecer um partido na Câmara de Representantes e os processos de obstrução no Senado. Resta ver se esses entraves poderão ser superados. E há razões legítimas para duvidar da capacidade dos EUA de manterem seu status de "hiperpotência", não menos pela ascensão de importantes economias emergentes.

Mas, como observa o autor conservador David Frum, nas duas últimas décadas os Estados Unidos registraram um forte declínio em criminalidade, mortes no trânsito, consumo de álcool e tabaco, e emissões de dióxido de enxofre e óxido de nitrogênio, que causam a chuva ácida - enquanto lideravam uma revolução na internet. Em função de tudo isso, as comparações tenebrosas com, por exemplo, o declínio de Roma, simplesmente não são confiáveis. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-SECRETÁRIO DE DEFESA ADJUNTO DOS EUA E PRESIDENTE DO CONSELHO DE INTELIGÊNCIA NACIONAL DOS EUA E PROFESSOR NA UNIVERSIDADE HARVARD. É AUTOR, MAIS RECENTEMENTE, DE 'PRESIDENTIAL LEADERSHIP AND THE CREATION OF THE AMERICAN ERA'

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