AP Photo/Rahmat Gul
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O Taleban e a China: entenda qual o interesse geopolítico por trás da aproximação

Interesses econômicos, influência geopolítica e contenção do terrorismo motivam sinalizações de Pequim ao grupo fundamentalista islâmico

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 05h00

Antes mesmo do Taleban alcançar o poder de fato no Afeganistão, quase 20 dias antes da tomada de Cabul, o governo da China recebeu uma delegação do grupo fundamentalista islâmico liderada pelo mulá Abdul Ghani Baradar, em seu território. A reunião deu indícios de que diante da retirada americana na região Pequim pretende exercer algum tipo de influência na região estratégica, que liga o sul da Ásia ao Oriente Médio e dispõe de reservas de metais de terra rara e lítio, ambos cruciais para a tecnologia de ponta no século 21. 

A negociação, contudo, não parte do zero. De acordo com Brahma Chellaney, professor de estudos estratégicos do Centro de Pesquisa Política em Nova Délhi, a China acena com a perspectiva de fornecer as três coisas de que o Taleban precisa para governar o Afeganistão: reconhecimento diplomático, infraestrutura e assistência econômica. "Uma China oportunista certamente explorará a nova abertura para fazer incursões estratégicas no Afeganistão, rico em minerais, e aprofundar sua penetração no Paquistão, Irã e Ásia Central", declarou.

Confira alguns pontos centrais na relação entre China e Taleban:

Fronteira de Xinjiang e uigures

Quando recebeu a delegação do Taleban em julho, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, buscou garantias de que os líderes do Taleban apoiariam as políticas da China sobre a minoria étnica uigure, originários da província chinesa de Xinjiang.

A preocupação de Pequim é que a tomada do Taleban possa desencadear uma radicalização de muçulmanos chineses - hipótese já levantada em anos anteriores por acadêmicos chineses, que criticam o Taleban por encorajar "separatistas" na China. O próprio governo chinês costumava associar o grupo rebelde ao Movimento Islâmico do Turquistão Oriental, apontado como responsável por ataques na região.

"A principal preocupação da China agora é para o Taleban construir um regime inclusivo e moderado para que o terrorismo não se espalhe para Xinjiang e a região. Qualquer outro cálculo além disso ainda está para ser visto", disse Zhang Li, professor de estudos do sul da Ásia na Universidade de Sichuan.

Em troca do apoio Taleban - o que deve significar um controle rígido da fronteira, para que não se converta em um espaço de livre trânsito para terroristas - Wang prometeu que a China não interferirá nos assuntos internos do Afeganistão e disse que o Taleban tinha "um papel importante a desempenhar na reconstrução do Afeganistão". A fala do ministro chinês, contudo, não significa um reconhecimento formal ao governo insurgente, pois é anterior à queda do governo de Ashraf Ghani.

Nova rota da seda e exploração de minérios

Por ser também um ponto de passagem entre o Oriente Médio, o sul da Ásia e a Ásia Central, o Afeganistão é também um ativo estratégico para China e sua Nova Rota da Seda, a rede de estradas, pontes, ferrovias e portos patrocinada pelo governo chinês em vários países na Ásia, Oriente Médio e África. 

Dois projetos de infraestrutura passam pelo país: uma estrada que ligará Cabul a Peshawar, no Paquistão, e outra rodovia que conectará a província de Xinjiang, de maioria muçulmana, ao Afeganistão e ao Paquistão. O governo afegão deposto havia aderido ao projeto em 2016.

Além disso, em 2007, Pequim ganhou a concessão da enorme mina de cobre Aynak (perto de Cabul), o segundo maior depósito do minério no mundo. O Afeganistão também possui grandes reservas de lítio que podem ser do interesse das empresas chinesas, já que o país é o maior produtor mundial de veículos elétricos.

"Quando essas obras forem concluídas, Pequim poderá alcançar sua meta de aumentar o comércio e a extração de recursos naturais no Afeganistão", afirma Derek Grossman, da consultoria Rand. "Estima-se que o país tenha reservas imensas de metais raros cruciais para a indústria de ponta chinesa."

 

Influência geopolítica

A tomada de poder pelo Taleban foi descrita pelo chefe da diplomacia da União Europeia, o chanceler Josep Borrell, como "o evento geopolítico mais significativo" desde a crise da Crimeia, em 2014. Para um dos principais líderes diplomáticos ocidentais, a crise cria "uma nova oportunidade" para a China e outras potências, como Rússia e Turquia, de "estenderem sua influência" na Ásia Central.

Apesar da disputa em aberto entre as potências bélicas e econômicas da região pela influência no território afegão, o posicionamento chinês até o momento não é de preencher nenhum vácuo de poder deixado pela retirada americana. No entanto, os interesses econômicos e políticos acabam projetando a China ao centro de mais uma disputa geopolítica.

Em uma frente, ao  mesmo tempo em que o alinhamento da China com o Paquistão garante uma posição privilegiada nas negociações, essa conformação opõe os chineses a outra potência nuclear: a Índia. 

Antigos inimigos do Paquistão, e permanentemente em impasse militar com a China ao longo de sua fronteira na Caxemira, os indianos foram um dos principais apoiadores do regime deposto em Cabul e, à medida que Islamabad e  Pequim se tornaram atores-chave em um Afeganistão governado pelo Taleban, o nervosismo de Nova Délhi aumenta.

Outra potência global, e especialmente importante no contexto asiático, a Rússia também tem seus interesses no Afeganistão - uma ex-república soviética localizada dentro da área de influência russa. Apesar da relação complexa entre os dois países, o presidente Vladimir Putin encorajou outros países a estabelecerem relações de boa vizinhança com o Taleban e "parar a política irresponsável de impor valores estranhos de fora". Ao lado de Irã, China e Paquistão, os russos foram os únicos a não retirarem sua embaixada de Cabul.

Os interesses chineses e russos na Ásia Central, no entanto, não coincidem e podem gerar rivalidades no futuro. "A Rússia tem cumprido um papel de oferecer segurança a esses países e os define como área de influência", disse Vanda Felbab-Brown, pesquisadora do Brookings Institution. "A China tem feito ofensivas diplomáticas e econômicas na região, o que Moscou vê como contrário a seus interesses".

Em uma última frente, a China também torna a situação no Afeganistão em mais uma fonte de pressão aos Estados Unidos -  novo palco para o antagonismo entre as duas grandes potências econômicas do mundo.

Nesta segunda-feira, 23, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, criticou os americanos, dizendo que os EUA não podem simplesmente abandonar um país dilacerado pela guerra. "Os Estados Unidos são a causa raiz e o maior fator externo na questão afegã (...). Não se pode simplesmente fugir assim"./ AP, AFP, REUTERS, EFE e W. POST

 

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