O tempo se esgota para o Irã

O país precisa agir sabiamente e comprovar que seu programa nuclear é pacífico

JOHN, KERRY, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2014 | 02h02

O dia 20, prazo final para um amplo acordo sobre o programa nuclear do Irã, aproxima-se rapidamente. Durante todo este tempo as negociações dizem respeito a uma decisão que os líderes iranianos devem tomar. Ou concordam com a adoção de medidas necessárias para tranquilizar o mundo de que seu programa nuclear será exclusivamente pacífico, ou desperdiçam uma oportunidade histórica de pôr fim ao isolamento diplomático e econômico do país e melhorar as condições de vida da sua população.

Diplomacia e liderança são marcadas por decisões difíceis. Esta não deveria ser uma delas.

As autoridades iranianas têm reiterado que não têm intenção de fabricar armas nucleares e suas atividades neste campo buscam atender às necessidades civis. Supondo que seja verdade, comprovar isso não é tão difícil.

Os EUA e nossos parceiros já provaram a sua seriedade. Durante as negociações para um plano de ação conjunto, estendemos nossa mão aos iranianos e nos reunimos diretamente com eles para entender o que o Irã pretende com seu programa nuclear. Com nossos parceiros internacionais, ajudamos a traçar um caminho que permitiria ao país manter um programa para fins exclusivamente pacíficos. Provamos que somos flexíveis oferecendo ajuda financeira.

Ao longo das conversações os negociadores iranianos mostraram seriedade. E o Irã também contrariou as expectativas de alguns, cumprindo todas obrigações estabelecidas no plano de ação conjunto, o que deu tempo e espaço para as negociações num sentido mais amplo continuarem.

Especificamente, o Irã vem eliminando seus estoques de urânio enriquecido (a 20%), limitou sua capacidade de enriquecimento, não instalando novas centrífugas, absteve-se de modernizar suas usinas de enriquecimento, permitiu novas e mais frequentes inspeções. Em troca, a União Europeia e o grupo dos P5+1 (China, EUA, França, Grã-Bretanha, Rússia mais a Alemanha) forneceram ajuda financeira limitada ao Irã, embora o programa de sanções internacionais continue vigorando.

Agora o Irã precisa decidir. Durante as negociações, o mundo tem desejado apenas que o Irã corrobore suas palavras com ações concretas. Nos últimos meses propusemos uma série de medidas passíveis de verificação e de fácil cumprimento que assegurariam que Irã não construirá uma bomba atômica e seu programa terá fins pacíficos. Em troca, o Irã teria garantias de uma redução gradual das sanções.

O que o Irã decidirá? Apesar dos meses de discussão, ainda não sabemos. Mas sabemos que ainda existem muitas discrepâncias entre o que os negociadores iranianos afirmam que desejam fazer e o que precisam realizar para chegarmos a um amplo acordo. Sabemos também que o otimismo demonstrado quanto ao resultado potencial das negociações não se harmonizou, até agora, com as posições expressadas a portas fechadas.

Tais discrepâncias não são causadas por exigências excessivas da nossa parte. Pelo contrário, os negociadores do P5+1 têm escutado com atenção as demandas e preocupações do Irã e mostrado o máximo de flexibilidade de acordo com nossos objetivos fundamentais nas negociações. Trabalhamos com o Irã para traçar um caminho com vistas a um programa nuclear que atenda a todas as condições de uso para fins civis.

Mas permanece a divergência entre a intenção professada do Irã com relação a seu programa nuclear e o real conteúdo dele. A discrepância entre o que o Irã diz e aquilo que tem feito explica porque essas negociações são necessárias e porque a comunidade internacional se uniu para impor sanções ao país.

A afirmação do Irã de que o mundo deveria confiar em suas palavras desconsidera o fato de que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) relatou desde 2002 dezenas de violações das obrigações internacionais do Irã com relação à não proliferação nuclear, desde os anos 80. O Conselho de Segurança da ONU reagiu adotando quatro resoluções, exigindo que o Irã ponha um fim às violações. Estes problemas não podem ser ignorados; devem ser solucionados pelos iranianos para chegarmos a uma solução ampla.

Para conseguir um alívio das sanções, o mundo quer simplesmente que o Irã prove que suas atividades nucleares são as que afirma que são.

Há nove meses o presidente Hassan Rohani, escreveu no The Washington Post que: "política internacional não é mais um jogo de soma zero, mas uma arena multidimensional onde a cooperação e a competição com frequência ocorrem simultaneamente... Os líderes mundiais devem ser os primeiros a transformar as ameaças em oportunidades".

Foi com este estado de espírito que o presidente Barack Obama prometeu que os EUA analisariam a possibilidade de uma solução negociada para o impasse nuclear do Irã. Entramos neste processo de negociação, pois acreditamos que tinha chances de sucesso. Ainda tem, mas o tempo está se esgotando.

Se o Irã decidir adotar essas medidas, os resultados serão positivos para a população iraniana e a sua economia. Poderá usar seu importante know-how científico para uma cooperação nuclear civil internacional.

Empresas retornarão ao Irã, levando investimentos, empregos e muitos outros bens e serviços, tão necessários ao país. O Irã terá mais acesso ao sistema financeiro internacional. A economia iraniana começará a crescer a um ritmo rápido e sustentável, melhorando o padrão de vida da população. Se não se mostrar disposto a agir assim, as sanções internacionais serão intensificadas e o isolamento do Irã se aprofundará.

Nossos negociadores estarão trabalhando em Viena até 20 de julho. Haverá pressões para uma ampliação do prazo. Mas isso só será possível se os dois lados concordarem. Os EUA e parceiros não consentirão com uma extensão do prazo apenas com fins dilatórios. O Irã precisa mostrar autêntica disposição de responder às legítimas preocupações da comunidade internacional no tempo que resta.

Neste mundo atribulado, não é com frequência que surge uma chance de se alcançar um acordo que atenda às necessidades essenciais, que vai tornar o mundo mais seguro, reduzir as tensões regionais e permitir uma maior prosperidade. Temos esta oportunidade e um avanço histórico é possível. Trata-se apenas de vontade política e comprovação das intenções. Decisões precisam ser tomadas. Decidamos sabiamente. / TRADUÇÃO PARA TEREZINHA MARTINO

É SECRETÁRIO DE ESTADO DOS EUA

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