O tenso encontro de três dinastias dentro do partido

Enquanto os Kennedys celebravam legado, os Clintons encaravam papel de coadjuvantes e cediam poder aos Obamas

Patrick Healy, THE NEW YORK TIMES, DENVER, EUA, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

Nenhuma das duas famílias queria que fosse assim, nem os Kennedys e nem os Clintons. Mas a abertura da Convenção Democrata apresentou um grande contraste: uma celebração da vida do senador Edward Kennedy, que sofre de câncer cerebral, e um amargo drama a respeito dos termos nos quais os Clintons entregariam o partido ao senador Barack Obama. Kennedy, que declarou seu apoio a Obama em janeiro, esperava ser o mestre de cerimônias de uma noite emocionante na qual a nova geração seria consagrada. Em vez disso, o tributo em sua homenagem chegou a assumir o peso de um adeus ao último dos históricos irmãos Kennedy, com uma intensidade que rivalizou com a animação em torno do discurso de Michelle Obama sobre o novo representante dos democratas, o marido dela. Enquanto uma dinastia política celebrava seu legado e cedia o palco político, a outra família dominante no Partido Democrata procurava proteger seu legado e aceitar sua saída da frente dos holofotes. A senadora Hillary Clinton e Bill Clinton certa vez sonharam que essa convenção seria deles. Em vez disso, encararam a realidade de seus papéis, reduzidos ao de coadjuvantes. Se a família Obama enxerga nos Kennedys companheiros ideais, os Clintons são vistos como, se não estraga prazeres, uma família mais complicada. O mesmo poderia ser dito da relação entre os Kennedys e os Clintons. Na convenção de 1992, na qual foi indicado como candidato à presidência, Clinton usou, em seu filme biográfico, uma desbotada gravação na qual ele aparecia se encontrando com o então presidente John F. Kennedy na Casa Branca quando ainda era adolescente, em 1963, para tentar estabelecer uma progressão natural. As duas famílias se tornaram amigas (mas não próximas) na década de 90. Mas o elo foi rompido quando o senador Kennedy declarou seu apoio a Obama em janeiro. Os Kennedys estão demonstrando uma aceitação mais plena dos Obamas que jamais fora oferecida aos Clintons. Enquanto os Kennedys procuraram abrir espaço no pedestal democrata para os Obamas, os Clintons estavam lembrando aos democratas que o partido ainda tinha um longo caminho a percorrer antes de poder se declarar unido com alguma credibilidade. Os críticos dos Clintons consideraram o gesto egoísta. Mas é fato que milhões de americanos votaram em Hillary este ano e Obama reduziu a importância, em certas ocasiões, dos sucessos do governo Clinton. E Clinton acredita que os partidários de Obama criaram para ele a imagem de preconceituoso contra negros, dizem seus amigos. Ao mesmo tempo, até os assessores de campanha de Hillary admitem que ela foi ofensiva falando a respeito de Obama em certas ocasiões - exatamente aquilo que o senador Kennedy a advertiu para não fazer. Robert Shrum, há muitos anos assessor de Kennedy, disse que da mesma maneira com que a ascensão de Clinton em 1992 marcou uma mudança de gerações dentro do partido, a ascensão de Obama é outro divisor de águas que ressoa de formas diferentes para muitos democratas.

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